07 de julho de 2026
Ser

Um luxo só!

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

Num misto de gregos e italianos nasceu há 27 anos Odil Zepper, o Juba, um bauruense que aos 14 anos se viu desenhando figurinos para escolas de samba, mas desde criança sabia que a moda iria ser o seu destino.

Consumidor voraz de informações e tendências, há cinco anos ministra cursos de moda e estilo no Senac Bauru. Hoje, seu know-how lhe garantiu o posto de coordenador do núcleo no Interior.

Sempre de bem com a vida, Juba define moda como o reflexo de cada um. Está numa fase branco e vermelho, mas sua cor preferida sempre foi o branco. Coleciona sapatos e tênis aos inúmeros pares, até os que não servem mais e não dispensa um cachecol mesmo no calor.

Ele sabe costurar e desenhar. E ao contrário do que se possa imaginar, Juba não pensa em ser estilista, mas não dispensa um trabalho nos bastidores no glamouroso mundo da moda. Na última sexta-feira, por exemplo, foi trabalhar no backstage do desfile de Ronaldo Fraga na São Paulo Fashion Week.

Antes de afivelar as malas, Zepper costurou um bate-papo animado com o caderno Ser. Os melhores momentos deste tricô, o leitor confere na seqüência.

Jornal da Cidade – Você sempre teve uma ligação com a arte e a cultura? Quando isso tudo começou?

Odil Zepper, o Juba – Na verdade, a minha vida artística começa com escola de samba. Eu desenhei para um monte de escolas de samba daqui de Bauru e da região.

JC – E quantos anos você tinha?

Juba – Ah! 14. Tinha 14 anos e já era figurinista. Era um barato. Depois de escola de samba, eu descolei um estágio na Secretaria da Cultura e foi muito legal porque me deu uma p... bagagem. O contato cultural é muito bom. Eu fiz estágio e saí. Depois de um tempo, voltei como funcionário e daí “startou” a coisa. Mas nesse meio tempo eu pensei: “Gosto tanto de moda e de figurino”. E fui para São Paulo fazer curso livre de moda no Centro de Educação do Senac. Fiz desenho e produção de moda e história da moda com o João Braga, que é fantástico, o melhor professor de história da moda do País. Eu voltei para Bauru e mandei um projeto para a Oficina Cultural para dar um workshop de desenho, voltado para o cênico. Um amigo me indicou para o Senac, me ligaram e eu aceitei na hora. E como em Bauru há pouco profissional de moda, tenho cinco disciplinas de um curso de 12. Fica até meio egoísta.

JC – Bom, para quem começou a desenhar para escola de samba com 14 anos, como vem este processo mais profundo?

Juba – É, essa coisa de moda, na verdade, vem assim... Eu morei com a minha avó a vida inteira e a minha vó sempre foi uma pessoa luxuosíssima. Uma pessoa que sempre se vestiu bem. Foi ela quem me ensinou a fazer maquiagem, a costurar. Qual era o lance dela? Ela sempre disse: “Se um dia eu faltar para ele, eu sei que ele vai saber fazer de tudo”. Aquela coisa de vó, né? Então, ela me ensinou a fazer de tudo, de A a Z mesmo. Voltando para a moda, ela me ensinou a costurar, a fazer patchwork. Ela fazia oficininha com a minha turma em casa. Era fofíssima. Mas desde o pré-primário eu adorava desenhar e desenhava muito. Mas eu desenhava muita roupa. Naquela época, tinha a Gigi, do Bambalalão (programa infantil da TV Cultura) e eu adorava a Gigi e desenhava muito figurino para ela. Depois veio a fase da Simony, depois a Xuxa, mas da Xuxa eu não gostava. Ela me assustava um pouco. Era muito fake. Então, desde pequenininho, eu já criava.

JC – E hoje? De qual apresentadora você gostaria de fazer o figurino?

Juba- Olha, eu gosto muito do figurinista da Adriane Galisteu, mas eu não sei se conseguiria superá-lo. Ele faz um mix bem bacana e é o mais ousado.

JC – E qual delas precisa ser repaginada?

Juba – Ai tem muitas. Aquela Márcia Goldsmith está precisando e muito. O público é outro, mas não tem desculpa. Agora outro dia, zapeando canais, eu vi o Ronaldo Esper (estilista) no programa do Leão dando alfinetadas nas atrizes. Fiquei muito triste, pois um cara com a importância que tem na história da moda do País fazendo aquilo. Eu jamais faria isso!!!

JC - Mas é uma característica de quem mexe com moda alfinetar literalmente? O Clodovil também é estilista e sempre foi língua preta.

Juba – Na verdade, acho que é uma característica de quem trabalha com comunicação e arte. Todo mundo gosta de dar uma espetadinha. Mas no mundo da moda isso é out. Já passou. Não existe mais certo e errado. A moda é muito individual. Tanto é que você vai para Londres e diz: “Jesus, onde é que eu estou!? Pelo amor de Deus que mundo bizarro.” Tem gente com calça de moletom, com bota country e com pérola! Então, é um momento da individualidade. Não existe certo, nem errado. O que existe sim são algumas regrinhas, algumas peças que ficam mais harmônicas.

JC – E do que você gosta? Qual o estilo Juba de ser?

Juba – O estilo Juba é um mix de tudo. Porque como eu falei para você, a minha vida, a cada 24 horas, eu vejo e vivo de tudo de A a Z, mesmo. Desde o mundo dos adolescentes, para não perder a juventude, passando pelo cinema, principalmente filme europeu que também é uma retomada de figurino, consumo muita música e por causa dos meus alunos ouço de pagode à música eletrônica, revistas mil. É isso... Eu sou vários Jubas ao mesmo tempo.

JC – E como funciona a sua identidade visual. Já te vi loiro, ruivo, castanho e agora está numa fase black total.

Juba – Acho que quando eu entrei para a vida cultural eu surtei, pois me achava muito comum. E tinha uma figura na época, o Johnny Luxo, que era o máximo. Imagine, para nós ainda no sertão, era uma coisa, um ícone dos anos 90, um David Bowie. Aí, eu cismei que queria ser o Johnny Luxo de Bauru e virei o Jujuba Lux, na época. Tinha uma amiga, a Luicy, que também trabalhava na Cultura e se vestia como eu. Nós éramos conhecidos como irmãos siameses. E, nessa fase eu comecei a desenhar mais ainda. Eu não costuro profissionalmente, mas dava um jeito de cortar e costurar as minhas roupas e da Luicy para sermos os “irmãos siameses de vinil da Duque de Caxias”. Era muito engraçado. Depois passei para ruivo. Voltei ao natural e estou superbranquinho de cabelo black, fazendo um preview da temporada outono-inverno 2004, que é um visual Ana Paula Padrão, branco do cabelo preto.

JC – De manhã, como é o Juba montando o visual? Fica horas em frente ao espelho, arruma a roupa de véspera, ou pega a primeira roupa?

Juba – Como um profissional de moda, eu não posso falar que pego a primeira roupa, não rola.

JC – De repente, você tem um guarda-roupa superfuncional onde tudo combina com tudo?

Juba – Ao contrário e errado, meu guarda-roupa tem mil coisas e a produção depende do meu estado de espírito. Eu costumo me preparar um dia antes. Mas se no dia seguinte acordo, abro a janela e é o dia de por a roupa x, eu surto e ponho a roupa x.

JC – Mas como é surtar no sertão? As pessoas te apontam na rua? Rola um preconceito?

Juba – Um pouco. Agora não tanto porque as pessoas já me conhecem mais. Mas no passado, sim, tinha preconceito.

JC – E isso te incomodou em algum momento da vida?

Juba – Acho que não para eu me vestir daquele jeito. A gente se veste para as pessoas. A Chanel dizia que você se veste para o seu espelho e o espelho quem que é? Você e o mundo. Então, não me incomodava. O que me incomodava era um lance de preconceito mais forte mesmo. No mais, eu não me importo, até gosto. Gostaria muito que as pessoas começassem a se apropriar dessa cultura do individualismo, porque aqui em Bauru parece todo mundo playmobil, todo mundo em série. Falta referência.

JC – Para você, aqui em Bauru, quem é completamente fashion?

Juba – Num mix de estilos a Gisele Aidar, que está maravilhosa, é a mais elegante; a Déborah Usare é a super cool; a mais moderninha é a Pérola Daibem e o Thiago Azevedo é o superdescolado. Tem várias pessoas que eu poderia citar, mas as mais over são essas mesmo, sem nem um pouco de timidez. Aqui, a gente vive muito a moda da televisão e não a do conceito. Mas eu espero que isso aconteça. O que falta é as pessoas se tocarem que um pano de chão pode virar uma super roupa bacana, basta ter criatividade e consumir um pouco mais de moda. Isso eu gostaria que as pessoas fizessem, lessem mais.

JC – Você tem vontade de ser um estilista?

Juba – Não, não. Eu estou trabalhando com consultoria de imagem. É uma área que eu adoro, que dá para brincar, fazer as pessoas de cobaia, no melhor sentido. Mas ser estilista não. Já tive essa vontade, mas eu descobri que a moda é muito grande e tem vários segmentos para poder atuar. Acho que a minha área é essa, além de dar aulas de educação em moda. Estou fazendo há cinco anos em Bauru e vou levar isso para Jaú e Marília.

JC – Você acha que tem uma missão com o Interior ou pode te dar na louca e levantar o acampamento e ir para uma Capital, onde as coisas no mundo da moda acontecem?

Juba – Eu acho que tenho uma missão sim. Eu vou sempre a São Paulo e ao Rio para coletar material, fazer cursos, me reciclar, me antenar. Mas até tenho medo de ir para Sampa. Se for para ir embora vou para outro País, mas eu sinto que tenho uma missão por aqui. E eu sou pioneiro em ensinar moda por aqui.