Em 1957, no mês de fevereiro, com 15 anos, vim para Bauru, hospedando-me na pensão da Dona Salua Trabulsi (Av. Rodrigues Alves, 9-32, 2º andar, fone 263). No térreo funcionava a “Escola de Datilografia Di Franco”. No segundo andar morava a família do estudante Ivo Giunta. Ao lado esquerdo ficava o jornal “Correio da Noroeste”. Do outro lado da rua havia uma loja de armarinhos e similares. Começava meu curso clássico no Instituto de Educação Ernesto Monte, dirigido pelo educador Edésio Del Santoro.
Na pensão moravam predominantemente estudantes. Algumas outras pessoas, não escolares, também se serviam das refeições oferecidas. Depois do almoço, às vezes jogávamos bilhar na Rua Primeiro de Agosto (Calim, Jalil, Edmundo e outros). A maioria desses comensais não residentes na pensão descendia do Oriente Médio. Vindo de uma cidade muito menor aprendera a denominá-los de “turcos”, entretanto não tinha nenhum turco (nem o Zé Turco o era) naquela época na pensão. Lembro de um sírio (na época Síria e Egito formavam a RAU), um jordanês, outros árabes e o predomínio de libaneses. Aprendi a conhecer a diferença entre muçulmanos, druzos e maronitas, entre outras informações colhidas nas horas de lazer. Entre estes últimos conheci dois verdadeiros mascates. Eram vendedores de armarinhos. Viajavam pela Paulista e pela Noroeste, predominantemente. Como tivessem apenas uma caminhonete Chevrolet, ano 1955, enquanto um passava a semana viajando, o outro permanecia em Bauru, na loja, do outro lado da avenida, defronte da pensão, aviando os pedidos recolhidos na semana anterior. Na semana seguinte eles trocavam. O que chegava de viagem entregava o carro para o que ficara e este saia entregando o que aviara. O outro ficava toda a semana na loja, atendendo o movimento e aviando os pedidos recolhidos em sua viagem. Eu era o mais jovem de todos na pensão.
Um feliz acaso (nome popular da mão divina) aproximou-me desses dois libaneses. Passei a freqüentar a loja. Expedito e prestativo comecei voluntariamente a ajudar a juntar cartelas de botões, acondicionar retroz, carretéis de linha, agulha, alfinete, enfim, ajudar a aviar os pedidos recolhidos. Eles trabalhavam com afinco e venciam com sua habilidade os obstáculos da dificuldade do uso da nossa língua. O progresso dos negócios indicava a necessidade de dobrar as vendas com os dois viajando. O mais velho planejou comprar outra caminhonete para ambos venderem em áreas diferentes simultaneamente, duplicando o faturamento. Comprar a caminhonete Ford, como de fato ocorreu, não era difícil. O que constituía problema era a Loja. Quem ficaria aviando os pedidos, atendendo os fregueses locais? Para esta função veio do Líbano um outro irmão. Eu o conheci desde logo tornando-me seu amigo e ajudando-o como já o fazia antes para os outros. Essa minha ajuda nunca teve nenhum interesse especial, era como se eu, menino de 15 anos, estivesse me distraindo. Quem sabe preenchesse a lacuna de estar vivendo longe da família, muito embora Dona Salua fosse como uma segunda mãe para seus pensionistas e isto facilitasse morar fora de casa.
A convivência com o recém-chegado, de idade mais próxima da minha, foi gratificante. Aprendi muito. Compartilhei conhecimento em sua adaptação ao Brasil. Assisti os mascates se tornarem grandes empresários. Juntaram pedra sobre pedra com o esforçado suor de seus rostos. Empreendedores empregaram muitas pessoas permitindo-lhes alguma oportunidade de viver melhor. Eu terminei a Faculdade de Direito na escola do inesquecível “paizinho” Antonio Eufrásio de Toledo e busquei meu rumo distanciando me fisicamente deles.
A amizade da família, depois acrescida com a chegada de outros, sempre foi um grande conforto para a minha vida. Tantas vezes fui incentivado, estimulado e até ajudado que me imagino, mesmo sem consultá-los, como um irmão. Porisso, Ibrahim, Edmundo e Pedro, quase meio século depois, derramo lágrimas para relatar minha gratidão no momento que inesperadamente tomo conhecimento do vazio que surge, da lacuna que aparece, do buraco que não se preenche - não verei mais meu amigo Moussa Nakhl Tobias. Pior, talvez não lhe tenha comunicado antes o quanto ele foi estimado. Mesmo assim, num desvario inevitável digo-lhe, obrigado por ter existido.
Edemur Ercílio Luchiari - luchiari@uol.com.br - RG 3.135.446