08 de julho de 2026
Geral

Unesp pode retroceder em titulação

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

O câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), assim como outras instituições públicas de educação, vem sofrendo um impacto não-planejado nos últimos meses: um grande número de professores titulados e experientes que pediram sua aposentadoria, por conta da reforma da Previdência. A saída destes professores contribui para a defasagem no número de servidores na instituição.

Na opinião do presidente da subseção de Bauru da Associação de Docentes da Unesp (Adunesp), Gilberto Magalhães, este movimento poderá provocar um “buraco negro” no ensino da universidade. Ele afirma que a instituição está perdendo professores qualificados e experientes e, mesmo com a realização de concursos, irá substituí-los por professores ainda sem experiência e preparo suficientes.

“Se forem contratados novos docentes, eles serão um grupo jovem, sem amadurecimento acadêmico. Formar um professor com experiência de pesquisa e de sala de aula não ocorre do dia para a noite. Poderemos cair num vácuo, um buraco negro em termos de ensino”, declara.

O presidente do Grupo Administrativo do Câmpus (GAC), José Carlos Plácido da Silva observa que muitos docentes já tinham o tempo de trabalho exigido pela Previdência Social e requisitaram sua aposentadoria antes da aprovação da reforma, no ano passado, com o objetivo de perder o mínimo possível dos benefícios aos quais teriam direito.

Nos últimos anos, a Unesp passou a exigir maior titulação e qualificação dos docentes. Plácido exemplifica dizendo que na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), o número de professores doutores passou de 29% para 80%, em cerca de quatro anos.

“Mas destes docentes, um grande número já se aposentou ou poderá se aposentar. O impacto disto é grande. A universidade tem a expectativa de que estes docentes se qualifiquem e comecem a dar retorno para os cursos, participando de projetos, atraindo verbas de órgãos de fomento, mas isto não está ocorrendo e muitos agora vão deixar a Unesp”, comenta.

Do total de 361 professores ativos atualmente nas três faculdades do câmpus de Bauru – Faculdade de Ciências (FC), Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) e Faac – 21,6% estão em processo de aposentadoria ou a conquistaram recentemente.

Aposentadoria

A professora doutora Adriana Josefa Ferreira Chaves, que leciona no departamento de Psicologia, foi uma das que optou por requisitar sua aposentadoria no ano passado. Ela continua trabalhando na universidade apenas para cumprir alguns compromissos pendentes. Na sua opinião, a atual defasagem de docentes na Unesp é provocada pela não-contratação de servidores com dedicação exclusiva.

“A política da universidade é de contratar professores substitutos e de dedicação em tempo parcial, e isto prejudica o ensino e a pesquisa, que fazem a qualidade de uma instituição”, diz.

O ex-presidente do GAC e diretor da FC, José Brás Barreto de Oliveira, concorda que a Unesp poderá ter um prejuízo tanto na qualidade dos cursos como para as pesquisas caso estes profissionais não sejam repostos e a defasagem no número de servidores seja reduzida.

“Há uma preocupação geral de que poderemos ter dificuldades, em função do grande número de aposentadorias, mas ainda estamos confiantes de que a universidade vai dar conta de repor estes docentes”, anseia.

De acordo com Plácido, o reitor da Unesp José Carlos Souza Trindade, teria a intenção de aumentar o quadro de docentes na universidade, com a realização de concursos que já estariam incluídos no orçamento da instituição e programados para este ano.

Brás argumenta que a outra alternativa para suprir a demanda de docentes seria a contratação de professores substitutos ou com vínculo temporário. “Mas esta não é uma opção desejada. Ela pode ser utilizada excepcionalmente, mas não em larga escala. Além disso, ela é onerosa, e o pior é que os professores não têm vínculos com pesquisa e muito pouco com atividades de extensão. Desejamos o professor em regime de dedicação exclusiva, para ensino, pesquisa, extensão e mesmo pós-graduação”, indica.

A Unesp está realizando uma análise em todos os câmpus para verificar a atual necessidade de professores e a realidade de cada curso. Este sub-quadro, entretanto, ainda não foi finalizado.