08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A vaca apaixonada


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Maio de 1984. A emenda das Diretas havia sido rejeitada pelo Congresso dias antes e eu estava de volta à minha atividade principal: editar um tablóide de banco, voltado para iniciativas comunitárias.

Franco Montoro governador, “o cidadão não vive no Estado ou na União, vive no Município”, o banco onde eu trabalhava financiava boa parte dessas iniciativas: hortas comunitárias, microempresas familiares, equipamentos agrários de uso coletivo, mas o carro-chefe do programa era a “vaca mecânica” - um engenho que processava grãos e farelo de soja, transformando-os em leite aromatizado com sabores que variavam de baunilha a morango, chocolate, etc; puro, devia ser intragável.

Eram os hortifrútis comunitários e este leite de soja (ainda não tão valorizada, como hoje) que incrementavam as merendas escolares e a alimentação de carentes. Não sei o que foi feito dessas “vacas mecânicas”, vinte anos depois - pode ser uma pauta...

Cada município que empreendia uma dessas engenhocas, lá eu me ia, com o fotógrafo Kléber Gonçalves, cobrir o evento. Depois de umas 30 “inaugurações” desses artefatos, eu já não agüentava mais.

Estávamos comendo em um bar, num pequeno município da região de Ribeirão Preto, quando soubemos de um sitiante que, dono de um terreno pouco maior que quatro campos de futebol, estava “fazendo a América!”. Fomos atrás, claro.

Em sua modesta propriedade, cultivava legumes e hortaliças, frutas diversificadas, tinha três pequenos tanques onde criava carpas e tilápias e, no fundo do terreno, também algumas vaquinhas. Não estava “fazendo a América”, claro, mas podia ampliar a produção, ocupava menos da metade do terreno, ter empregados, mas precisaria de dinheiro. “Tomar emprestado de banco, nunca!”, riu quando sugeri que procurasse o meu. Sabia das coisas este pequeno sitiante. N]ao é segredo, o pior negócio do mundo é tomar dinheiro emprestado de banqueiros...

Enquanto conversávamos no pequeno e produtivo pomar, Kléber fotografava tudo que via. De repente, um troço áspero e pastoso lambeu o meu pescoço e rosto: quase caí sentado, uma vaca!

- Num se assuste, não, moço, é a Suzi. Tá meio véinha, mas ainda dá uns 2 barde por dia. Ela gostou docê, querendo, faço um precinho bão nela... - e não é que a vaquinha não desgrudou mais de mim?!

Foi insuportável aturar os 300 quilômetros de volta a São Paulo. O gorducho Klebão, um barril ambulante, rindo gargalhadas intermináveis e perguntando a cada minuto se eu não ia escrever para Suzi, telefonar para Suzi, mandar um cartão... Fosse menor algumas arrobas, Kléber levaria uns bons pontapés.

Diorindo Lopes Júnior - jornalista e autor de “O Sol em Capricórnio"