Ouço na rádio que a cidade está infestada de corujas. Ouço também o conselho para não molestarmos esses bichinhos, pois eles caçam outros, os peçonhentos. E é sobre esses outros que quero discorrer, os peçonhentos. George Orwell (o do verdadeiro big brother) cantava na distante 1937, durante sua participação na Guerra Civil Espanhola, algo que já nos indicava que os roedores estavam tomando proporções inimagináveis. Vejam só o mote da música e estabeleçam a relação que quiserem com os dias atuais: “Existem ratos, ratos, ratos/ ratos grandes como gatos/ no armazém do comando.”
Na verdade, estou meio cansado de ficar caçando e mostrando o que os ratos atuais andam roendo. Dá uma canseira danada e pouca coisa de prático é feita para exterminá-los definitivamente. Acredito até que o raticida que estamos utilizando não seja dos mais eficientes. Ou, o que é pior, os ratos estão em maior quantidade e muito bem distribuídos em tudo quanto é “armazém de comando”.
O fato é que muita gente continua falando, escrevendo, cutucando, mostrando, demonstrando, comprovando, explicitando a localização dos roedores e tudo continua como “dantes no quartel de Abrantes”. Os ratos continuam todos aí, mais fortes, mais gordos, muito bem tratados, de fino trato, com poucas perspectivas de perderem a boquinha. Essa letargia coletiva, que faz com que convivamos lado a lado com comprovados ratos, como se ratos não fossem, faz parte desses nossos tempos, onde não fazemos mais muita questão de permanecermos juntos a um peçonhento, que devora o que não lhe pertence.
Rato é um bicho descarado, faz tudo rapidinho, correndo para o seu canto, ficando nesse vai-e-vem indefinidamente. Ou tomamos uma atitude ou eles tomarão conta do navio e nós seremos obrigados a abandonar a embarcação. O pior é que sabemos muito bem quem são esses ratos, mas parece que eles são mais “espertos” que todos nós. Ou não? Convoquemos as corujas de plantão, se é que elas caçam ratos.
Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2