09 de julho de 2026
Política

Eleitor pede transparência a candidato

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 7 min

A era do blá-blá-blá é uma página virada da história política contemporânea. Mais consciente, o eleitorado está cansado das promessas descabidas, das brigas de baixo nível que atingem a reputação pessoal dos candidatos e das mentiras que alguns ainda teimam em aplicar durante as campanhas eleitorais. A transparência é a moeda de troca que o eleitor pede ao candidato para iniciar uma relação que poderá culminar com uma resposta positiva nas urnas eletrônicas que serão ligadas no dia 3 de outubro deste ano.

Para o professor do curso de história da Universidade do Sagrado Coração (USC), João Francisco Tidei de Lima, a descrença do eleitorado está intimamente ligada à falta de projetos por parte do Poder Público. “No meu modo de ver, isso é que leva ao pessimismo, à descrença. Não há um sentimento de esperança. É preciso ter um projeto viável para o País, para o Estado e para o município, que contemple as grandes carências”, analisa.

Nesse sentido, o eleitorado vai prestigiar os candidatos a prefeito e à Câmara de Vereadores que jogarem limpo na campanha eleitoral deste ano. As conhecidas propagandas enganosas - que cabem muito bem na seara política - não vão colar. As entidades de classe e os segmentos organizados da sociedade almejam a instalação de um clima de debate de alto nível, sem grosserias e rompantes que manchem as discussões.

“O que esperamos para essa eleição municipal é a discussão de idéias e ideais. Se isso não vingar, acredito que pouco se vai acrescentar em relação aos pleitos anteriores”, opina o empresário Cássio Carvalho, coordenador do Grupo Pró Bauru, que congrega representantes de todos os segmentos da cidade na busca de soluções para seus problemas.

Ele ainda tem dúvidas em relação a uma campanha de alto nível, na qual prevaleça o debate e a discussão de grandes temas. “O eleitorado ainda aprecia um pouco de sensacionalismo. Basta ver os programas exibidos na TV, que primam por essa vertente. Infelizmente, a agressão dá cartaz. Isso não leva a nada. Eu falo mal de você, que será obrigado a provar o contrário. Espero, sinceramente, que os ataques fiquem de lado nas eleições deste ano”, prega.

Credibilidade

Os três pré-candidatos que já declararam que vão disputar a Prefeitura de Bauru em outubro – Carlos Braga (PP), Tuga Angerami (PDT) e Caio Coube (PSDB) – estão dispostos a realizar uma campanha de alto nível, na qual prevaleça o debate dos grandes temas. Mas além disso, Angerami afirma que todos os candidatos envolvidos nas eleições deste ano têm uma outra grande tarefa.

“Reconstruir a confiabilidade, a credibilidade do fazer política em Bauru. Temos que entender que a população tem todo direito de achar que a administração de qualquer um que pregar o baixo nível na campanha será igual na condução do governo. Aqueles que forem para os ataques pessoais, para acusações levianas, irresponsáveis, acho que serão punidos pelo eleitorado. Nós temos essa dívida com a população de Bauru. Temos que reconstruir a credibilidade, a dignidade do mandato popular. Isso tem que voltar a ter peso”, afirma.

O pedetista avalia que outra vertente que vai contribuir com a campanha é a qualidade dos candidatos. “Nesse sentido, quero crer que os partidos políticos também vão tomar cuidado no momento de fazer suas indicações. Todos os partidos têm a compreensão da importância de reconstruir essa credibilidade do fazer política. As legendas começam a dar essa contribuição no momento em que indicam seus candidatos.”

Analogia

Na opinião do pré-candidato tucano Caio Coube, campanha é uma disputa que pode ser comparada a um campeonato. “Cada jogador joga de acordo com a sua característica. Assim como no esporte há jogadores leais, que jogam com intensidade mas vão na bola, na política temos os candidatos leais e éticos. Assim como no esporte também há jogadores desleais, que batem, são maldosos, na política existem os políticos antiéticos. É o caráter de cada um”, compara.

O empresário avisa que vai colocar na campanha o seu estilo de jogo. “Sou uma pessoa habituada à competição. Minha experiência é no mundo dos negócios e esportivo. Estou acostumado a competir. Dentro da competição tem a restrição, que é o adversário, que tem que ser respeitado e tem que ser vencido. É preciso correr mais do que ele. No negócio, é preciso ser mais eficiente e competente para vencer. Eu não tenho nenhuma dificuldade com o ambiente de competição. Ao contrário, tenho afinidade”, diz Coube.

O tucano acredita que o atual modelo de administração pública e de campanha política focada nos ataques aos adversários está esgotado. “A população não está interessada nas questões de caráter pessoal dos candidatos. O interesse está voltado para o coletivo. Isso vai ficando cada vez mais óbvio”, garante.

Campanha propositiva

As opiniões de Angerami e Coube também são validadas pelo ex-deputado estadual Carlos Braga, outro pré-candidato à Prefeitura de Bauru. “A campanha tem que ser séria, com respeito à população, a principal interessada. Além disso, tem que ser uma campanha propositiva para resolver os problemas da cidade, que são muitos.”

Ele acredita que a sociedade espera que o próximo prefeito tenha capacidade administrativa e política para enfrentar a demanda de necessidades acumuladas no município nos últimos anos. “A população espera que alguém resolva seus problemas.”

Na opinião dele, a comunidade não vai mais tolerar a politicagem. “Nem na administração e muito menos nos debates que visam a escolha de um prefeito. A campanha para mim, portanto, tem que ser de alto nível com propostas de soluções de problemas”, diz.

O que você espera da campanha?

“Espero que entre um candidato que seja digno da cidade, que pare com esse negócio de CPI daqui, CPI dali. Não gosto de boca-de-urna porque no dia da eleição eu já decidi em quem vou votar e não adianta ficar correndo, dando ‘santinho’...” (Cipriano Nogueira da Silva, 60 anos, aposentado)

“Espero que a população entenda que nós temos que votar para melhorar, não para ficar sempre aqueles que estão no poder e não fazem nada. Eu não gosto de mentira.” (Pedro de Paiva, 67 anos, aposentado)

“Espero que Bauru possa progredir, porque a cidade regrediu muito. Não gosto das promessas. Eu acho que os políticos deveriam ser um pouquinho mais originais nas promessas.” (Mara Regina de Oliveira, 44 anos, dona de casa)

“Não gosto das brigas entre os candidatos, porque as pessoas não entendem nada. Ao invés de falarem o que estão querendo fazer, eles ficam se agredindo.” (Andréa Ferreira Guarnieri, 25 anos, desempregada)

“Não tem muito que esperar. Se continuar entrando e saindo político só por corrupção, não dá. É escolher um, votar nele e esperar que ele mude um pouco. Mas está difícil escolher. É muita sujeira, tanto nas ruas quanto nos programas políticos. É tudo uma palhaçada. Não tem jeito. É sujeira nas ruas, nos postes, não tem mais lugar limpo, um candidato fala mal do outro e no fim você tem que escolher um e não sabe se está escolhendo certo ainda.” (Clériton de Moraes, 29 anos, técnico em radiologia)

â€œÉ difícil porque a gente tenta, tenta, tenta e nunca consegue colocar alguém que faça alguma coisa pelo povo de verdade. Então ainda não sei em qual candidato vou votar.” (Juliana Louzada da Costa Goffi, 19 anos, estudante)

“Espero que os candidatos façam muitas coisas boas, porque até agora não conseguimos nada. Não gosto é de muita mentira que eles falam, que vão ajudar a gente e no fim não fazem nada, só promessa.” (Otília Louzada da Costa, 60 anos, costureira)

“Espero que pelo menos aqueles que agora irão entrar, façam um pouquinho mais em relação àqueles que estão lá. Não gosto das sujeiras nas ruas, muitos panfletos e a população não tem consciência e joga os papéis no chão.” (Iraci Santinho, 38 anos, secretária)

“Que os eleitos demonstrem na prática tudo aquilo que a cidade precisa. O horário político na televisão é terrível. O pessoal suja muito a cidade e deixa daquele mesmo jeito, aquela bagunça.” (Alexsandro da Silva Mariano, 20 anos, balconista)

“Espero que a eleição seja diferente das outras. Não gosto daquela amolação de promessas que depois não cumprem.” (Rita de Cássia Lopes, 43 anos, serviços gerais)

“A vontade que temos é que as coisas mudem, que melhorem, que os políticos olhem para os pobres. Bauru só tem buraco. Já apelidaram a cidade de ‘a terra do tatu’. Não tem nada, não tem emprego. Tanto que estou indo embora daqui. Político nenhum olha por nós. Se eles não fizerem alguma coisa, a tendência é a cidade piorar mais ainda. Não gosto da hipocrisia e da falsidade.” (Maria Hortência, 53 anos, artesã)