09 de julho de 2026
Articulistas

Arquitetura local e a Semana de 22


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A Semana de Arte Moderna de 1922 é lembrada em Bauru, 82 anos depois, com o lançamento de duas torres de apartamentos de 25 andares cada, uma com o nome de Anita Malfatti e outra em homenagem a Tarsila do Amaral. O conjunto arquitetônico chama-se “Arte Brasil Residencial” e tive a oportunidade de ver o projeto em avant-première, a convite do arquiteto e idealizador Riad Elia Said, de seu filho e arquiteto colaborador Rodrigo, e do irmão e sócio Edmond Elia Said.

Isto aqui não é um jabá para ajudar na venda dos apartamentos. Achei curiosa essa homenagem a uma manifestação de intelectuais que mudaram a estética brasileira. Ainda mais vinda de empresários libaneses-brasileiros-bauruenses. Teria sido influência da mini-série global “Um só coração”? Mesmo que tenha havido esse tipo de inspiração, a iniciativa da família Said demonstra integração cultural ao Brasil, aos seus costumes, valores e espírito. O conjunto arquitetônico, que dá seqüência a outras obras bem sucedidas da família, também revela fé no potencial da cidade, sentimento condicionado pelo amor à terra. Logo que chegou ao Brasil, Riad realizou pesquisas para a Universidade de São Paulo sobre as influências sofridas pela arquitetura brasileira. Encontrou similaridades em muitas técnicas de construção que são utilizadas aqui com as dos fenícios, habitantes do que hoje é o Líbano e conhecidos como grandes navegadores e negociantes. Das influências estrangeiras como a do francês Le Corbusier nasceu um estilo brasileiro de arquitetura que foi capaz até de fazer escola com Niemeyer, Lúcio Costa, Vila-Nova Artigas e outros expoentes. Justamente esse reprocessamento do modo alienígena de fazer é o que propunha a Semana de Arte de 22. Na verdade, a semana só teve três dias - 13, 15 e 17 de fevereiro. Esse movimento antropofágico foi capaz de devorar culturas e técnicas importadas para sua reelaboração com autonomia, transformando o produto importado em exportável. Oswald de Andrade, com seu “Manifesto Antropofágico” recupera nos anos vinte do século passado a crença antiga: os índios comiam o inimigo, supondo que estavam assimilando suas qualidades. O símbolo dessa ideologia é o quadro que Tarsila do Amaral deu de presente a Oswald de Andrade, com quem veio a se casar – “Abaporu”. “Aba”, em tupi é “homem”e “poru” – que come carne. Essa tela foi arrematada por 1,3 milhão de dólares por um colecionador argentino e está em Buenos Aires. Foi o preço mais alto já atingido por uma obra de arte brasileira.

Riad tem recriado a estética da arquitetura bauruense com os seus edifícios na Av. Nações Unidas, onde se concentra a maioria das suas obras. Verticalizou a beleza horizontal da nossa principal via de acesso, obra definitiva de outro arquiteto bauruense, Jurandyr Bueno Filho. As obras de Riad apenas ajudam a dar um todo orgânico à avenida. As duas torres da “Arte Brasil Residencial”, pela concepção, cores e centro de convivência certamente vão aprofundar a dimensão de cidade moderna que Bauru já possui naquele setor. O poder publicou urbanizou um vale inexpressivo com o projeto e construção da Nações Unidas e a iniciativa privada deu conta de preencher o vazio com belos empreendimentos. Pena que tenhamos perdido a fórmula dessa união entre o público e privado que deu tão bons frutos há mais de vinte anos.

Embora Rita Lee tenha dito que “paulista não sabe fazer festa”, aquela, de 82 anos atrás, deu o que falar. Como tudo o que é novo a manifestação provocou vaias, brigas, polêmicas. Imagine Villa-Lobos de chinelo e guarda-chuva regendo suas músicas no Teatro Municipal; Ronald de Carvalho, num país de parnasianos, recitando “Os sapos”, de Manuel Bandeira - “Meu pai foi à guerra/Não foi.Foi.Não foi”. Monteiro Lobato criticou a atitude renovadora de Anita Malfatti porque acreditava na estabilização da consciência criadora, na estética como um todo orgânico de consciência coletiva e, portanto imutável. “Um gato é um gato, não é um cubo” - exemplificava. Nessa linha de raciocínio teríamos que continuar pintando como Michelangelo e projetando edifícios como os gregos. As vanguardas servem para dinamizar a sociedade e fazê-la avançar. Que o empreendimento seja um sucesso e encoraje outros a também investir em Bauru.(O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC).