08 de julho de 2026
Ser

Nem tudo é glamour no mundo da moda

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Para começar, o acesso é restrito e é preciso convite para quase todo canto. E para não ter problema na catraca dos desfiles nem jeitinho brasileiro, são todos cartões magnéticos.

Mas não é chegar e pegar o seu não. Cada grife distribui a sua cota. Por isso, um jornalista que quer cobrir todos os desfiles, além de estar credenciado no evento, precisa solicitar seu convite às respectivas assessorias de imprensa e depois ir de show-room em show-room para finalmente conseguir o cobiçado cartão branco e rosa que garante uma cadeira numerada na sala de desfile.

Aliás, este ano a São Paulo Fashion Week lançou moda de uma nova profissão: os guarda-lugares. Uma centena de estudantes de moda vestia uma camiseta estampada com o número da cadeira dos convidados da primeira fila e esperavam o vip chegar, com brindes no colo. Para aumentar o glamour, cada um tinha um broche de luz, verde, azul, ou vermelha, piscante no meio do peito.

Ao perguntar a um garoto com o número A38, no desfile da British Colony by Máxime Perelmuter, qual era a sua função, ele sorriu: “Guardar o lugar de um patrocinador que não sei quem é ou esperar que uma famosa ocupe a cadeira que estou esquentando e me dê um beijinho de recompensa.” Quanto ganha pela gentileza? “Uns trocados, mas com direito a assistir aos desfiles em pé, atrás da platéia.”

No dia seguinte, uma garota que segurava os brindes oferecidos pela Iódice apenas para os convidados das três primeiras fileiras contou que receberiam R$ 250,00 pelos sete dias de desfile.

A maioria adorou a idéia da cadeira cativa. Mas muita madame teve chilique com a segurança ao ver alguém sentado em sua poltrona. Para minimizar o estresse, algumas grifes colocaram relações-públicas junto aos seguranças para recepcionar seus convidados mais importantes.

Standing

Como nem tudo são flores, xadrezes e listras, até quem é do mundo da moda sofre. “Eu fiz backstage para o Ronaldo Fraga e fiquei para assistir Caio Gobbi e o desfile da Iódice. Enfrentei a luta do standing, but... tudo tem o seu lado B”, comentou o consultor de moda do Senac Bauru, Odil Zepper. O também bauruense Renato Fabiano conseguiu convites para boa parte dos desfiles, mas reafirmou que a maratona para buscar os cartões o fez cruzar São Paulo inteirinha. “Ora era na rua Augusta, ora na Barra Funda. Outra fábrica é na Zona Norte”.

Como a cada desfile também era distribuída uma cota mínima de convites não numerados para cadeiras remanescentes, ou para ficar em pé, se o estilista permitir, a fila do stand by é grande e tem fregueses de carteirinha que conseguem acesso a todos os desfiles. Até para os estandes, pontos de divulgação de produtos e serviços, são pedidos convites. Os que dão brindes e servem comidinhas são os mais procurados e é preciso muita lábia para dobrar a segurança. Afinal, num evento de moda, a maioria tem uma carinha bonita. “Fiquei com dó de uma modelo que de tão magrinha não tinha força nem para falar”, comenta um dos seguranças do estande de uma das revistas mais badaladas do País.

A imprensa tinha acesso à maioria dos espaços, mas precisava “cavar” informação, imagens, etc. Brindes e atenção de recepcionistas pareciam ser novamente só para convidados.

Maratonistas

Aliás, para cobrir um evento como este é preciso ter preparo físico e uma paciência malhada. Os desfiles são feitos em quatro salas em três andares diferentes, numa análise combinatória de muito sobe e desce de escadas, que só na subida são rolantes.

Este ano, a maratona teve “provas”, ou melhor, quatro desfiles (Cori, Huis Clos, Sommer e Lorenzo Merlino) realizados fora do Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, um em cada canto da cidade.

Entre 13h30 e 15h, era dada a largada para o posicionamento dos fotógrafos na fila do pit (aquele espaço em frente à passarela destinado aos profissionais de imagem que disputam a melhor tomada ou clique).

Quem tem a melhor lente ou um motor mais possante, que faça mais fotos por segundo, leva vantagem? Nem sempre. Tem que ser grande, ágil, possuir uma escada alta, contar com assistentes para guardar lugar na fila ou a sorte na hora em que os seguranças liberam o gradil. Na verdade, é um salve-se quem puder.

Depois de dois ou três desfiles, algumas panelas se formam e rola até uma relação solidária para minimizar a correria, o estresse e o cansaço. Afinal, o equipamento pesa, e como pesa. Só como exemplo, a bolsa que levei tinha 8,5 quilos, que eram carregados do início da tarde ao final da noite. Detalhe: fotógrafos e cinegrafistas ficam o tempo todo em pé. Um fotógrafo francês, do jornal Le Monde, deixou de lado o sapatos e encomendou um par de chinelos havaianas. Trabalhou assim, todos os dias.

O recorde de espera, tumulto e estresse foi batido no desfile feminino da Forum, onde foi gravado um capítulo da novela “Celebridade”. Mais de uma hora de espera fora do pit, num empurra-empurra até com os convidados, e quase outra antes de começar o desfile assistido por Maria Clara Diniz (Malu Mader) e Renato Mendes (Fábio Assunção). Além de Bebel Gilberto, responsável pela trilha sonora.

Entre um desfile e outro, alguns precisam parar por segundos para descarregar fotos na sala de imprensa, onde também se disputam computadores, armários e copos d’ água. Aliás, água era moeda entre os profissionais. Paulo Whitaker, fotógrafo da agência Reuters, comprou um belo lugar no desfile da Cavalera, na tarde de sexta, por meio copo de água mineral quente. No desfile de Sommer, no domingo, em pleno sol de meio-dia na rua Augusta, ele fez caridade e dividiu entre oito colegas um outro copo.

Thimothe Jansen, cinegrafista da Fashion TV de Paris, descobriu na feira-livre o doce sabor da garapa, mas exagerou na dose: em cada bolso do seu colete tinha uma garrafinha. Ele foi alertado em todas as línguas que o excesso da bebida lhe faria mal.

Apertados no pit ou “grudados” sob um guarda-sol, dá até para fazer amigos e trabalhar na camaradagem. Os cinegrafistas gaúchos da RBS trocavam receitas de churrasco com dicas de lugares imperdíveis da Capital com a turma da Band e o fotógrafo Claudio Pedroso, da Reuters.

Já Márcio Shaffers, que fotografava para a BR Imagens, fez a gentileza de me enviar fotos do desfile da Ellus onde meu posto no pit não era dos melhores e de Alexandre Herchcovitch, no último dia, depois do meu retorno.

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Ares de feira

A São Paulo Fashion Week também ganhou um Salão Nacional de Moda e Design com 40 grifes e designers, que, segundo o idealizador da SPFW, Paulo Borges, vai mudar os paradigmas do setor, pois irá lançar coleções a cada três meses, de acordo com as estações do ano.

“Nosso objetivo com os quatro salões anuais é criar uma mudança de conceito. Isso acontecerá desde o processo de planejamento da produção até os de volumes de entrega nas lojas e visa atender aos consumidores, que terão mais ofertas em períodos mais breves. Já os confeccionistas e lojistas terão a cada quatro meses um novo mix de produtos a oferecer”, avalia.

Sobre se criar outras semanas de moda, Borges diz que ainda é precipitado pensar, até mesmo porque a SPFW e a Moda Rio seguem o calendário mundial da alta costura.