09 de julho de 2026
Articulistas

Achatina fulica


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Desde o surgimento do planeta Terra acontece um constante processo de interação entre os seres vivos de uma determinada região e a conseqüente adaptação aos seus fatores climáticos e geológicos. Nós, especialmente nos últimos 100 anos, temos metido nosso bedelho nessas interações e adaptações. Muitas vezes obtemos sucesso, porém os deslizes também se apresentam, e alguns deles trazem conseqüências nefastas. É daí que também vem o “zelo” de nós ambientalistas em relação à questão dos OGMs (organismos geneticamente modificados – os trangênicos). Uma escolha errada e a vida no planeta pode estar em perigo. Apenas para exemplificar, por volta de 1920 foi feita uma escolha que priorizava a utilização do Cloro em vez do Bromo na composição do CFC (aquele gás que utilizávamos nos aerossóis e serpentinas de geladeira). Se o Bromo tivesse sido o escolhido, estudos atuais do Inpe-CPTEC comprovam que nossa valiosa camada de ozônio teria sido completamente destruída até 1960. Veja os estragos advindos de buracos na tal camada (aumento do índice de câncer de pele e contribuição com o efeito estufa, p.e.) e conclua como seria sem ela.

Uma senhora achou bonito nosso aguapé e o levou para a África, introduzindo-o no lago existente nas cercanias de sua residência. Uma cheia fez o lago transbordar, depositando alguns aguapés no Lago Vitória. A coisa proliferou de tal modo que passou a dificultar a locomoção de barcos no lago (meio de transporte importante de várias comunidades do local), diminuiu consideravelmente os peixes (fonte de alimentação fundamental) e forneceu abrigo para algumas espécies de répteis que oferecem risco aos humanos...

Pois é! O mesmo ocorre com o molusco Achatina fulica, esse caramujo que aportou inicialmente nas beiras de rios e córregos de nossa região, e que hoje invade praças na cidade e lavouras no campo. Ele é originário da África, e foi trazido ao Brasil na década de 1970 para substituir o “escargot”, que não se dava muito bem em nosso clima tropical. Já o fulica... Não faltaram alertas na época, que ressaltavam o perigo deles escaparem e colocarem em risco as 53 espécies de caramujo terrestres nativas. Mas, na lógica do capital, o fulica era presa fácil, pois ratos e gaviões se encarregariam de devorá-lo. Ou mesmo a terra roxa o intoxicaria. Qual o quê...

Através de um programa capenga, muitos cursos de criação do molusco foram oferecidos a sitiantes (inclusive pela Universidade de São Paulo). Sem assistência, muitos desistiram e (que bonzinhos!) soltaram os bichinhos na natureza. Olha o resultado! E deve piorar, pois eles gostam bastante de se relacionar. Quando cruzam, por serem hermafroditas, ambos botam ovos. Em torno de 200 cada. Isto significa que um único fulica pode gerar 100 mil netos em menos de um ano. Já fizeram estrago em plantações na África, Índia e China. Resistiram a milhões de dólares na Flórida, onde tentaram erradica-lo. E em uma única investida, a cidade paulista de São Sebastião recolheu seis toneladas dos caramujos, que já se alastram também por Minas, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiás. Poderíamos come-los, afinal são uma iguaria culinária, se não houvesse o risco de contrairmos a meningo-encefalite. Resta queimá-los, mas ainda assim corremos o risco de sua casca servir de criadouro para o mosquito da dengue... (O autor, José Paulo Toffano, é coordenador regional do Partido Verde e secretário de Meio Ambiente de Jaú)