08 de julho de 2026
Geral

Bauru pode ser paradeiro de Carlinhos

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

A solução para um dos casos de desaparecimento mais famosos do País pode estar em Bauru. Um exame de DNA vai definir se o mestre de obras Carlos Alberto de Souza, 38 anos, é na verdade Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, seqüestrado diante da mãe e de quatro irmãos em agosto de 1973, quando tinha 10 anos, no Rio de Janeiro.

O caso vinha sendo investigado em sigilo há cerca de um ano, mas veio a público ontem. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, as suspeitas de que Carlinhos esteja vivendo em Bauru surgiram a partir de uma carta anônima, enviada por uma pessoa que se identificou como amigo de Souza.

A correspondência foi endereçada ao SOS Crianças Desaparecidas da Fundação para Infância e Adolescência (FIA), órgão da Secretaria de Estado da Infância e da Juventude. O remetente afirmava no texto que havia visto em um programa de televisão uma projeção, feita em computador, de como seria o rosto de Carlinhos na idade adulta. A semelhança com o colega teria lhe chamado a atenção.

O amigo de Souza também comentava na carta que o mestre de obras sempre teve dúvidas quanto ao passado, já que suas características físicas (pele e olhos claros) eram diferentes da família em que cresceu, formada por negros.

Ele teria sido criado pelos avós maternos depois que a mãe o abandonou e só conheceu o pai aos 17 anos, mas nunca recebeu informações sobre a sua origem.

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa da secretaria, diante das suspeitas, a FAI passou a fazer contatos que pudessem levar ao paradeiro de Souza, que acabou sendo localizado. Há cerca de seis meses, um funcionário da fundação esteve em Bauru para conversar com ele.

Durante o encontro, o mestre de obras teria dito que não se lembrava do seqüestro, mas contou que tinha feito uma viagem de caminhão quando era criança e teve os cabelos pintados de cor escura pela mãe.

Ele também revelou marcas físicas semelhantes a que Carlinhos possuía quando desapareceu, como um sinal ao lado do nariz e uma cicatriz provocada por um corte no joelho.

Esperança

A mãe de Carlinhos, Maria da Conceição Ramires da Costa, afirma que está esperançosa de, finalmente, poder encontrar o filho. Ela revela que chegou a conversar com Souza por telefone duas vezes. “Ele estava ansioso, porque é uma pessoa que está procurando a sua família”, diz.

Segundo Costa, o mestre de obras revelou que acredita na possibilidade de realmente ser o garoto seqüestrado. “Ele sentiu uma sensação estranha depois que viu a história do meu filho em um programa de televisão e comentou que este tipo de sentimento normalmente não acontece com ele”, comenta.

Ela recorda que chegou a ser apresentada a dois rapazes que se apresentaram como Carlinhos, mas as suspeitas não se confirmaram.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro também informou que o exame de DNA deve ser realizado nos próximos dias, provavelmente em Bauru.

Embora o crime tenha prescrito, não está descartada a hipótese de reabertura do caso se os testes confirmarem que o mestre de obras é mesmo Carlinhos. A mãe dele já teria sido identificada.

A reportagem tentou, mas não conseguiu localizar Souza para comentar o caso. Para a secretaria, ele pediu que nenhuma informação a seu respeito fosse divulgada.

Já o delegado da Delegacia de Investigações Gerais/ Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), J.J. Cardia, afirma que ainda não foi informado sobre a possível presença de Carlinhos em Bauru.

Na região, o caso de desaparecimento mais comentado nos últimos anos é o do garoto Josiel Dias Cardoso, que sumiu da casa dos avós paternos, no distrito de Brasília Paulista, no município de Piratininga, em 23 de fevereiro do ano passado.

Josiel, na época com 2 anos, desapareceu no mesmo dia em que o pequeno distrito, com cerca de 150 habitantes, sediava um torneio de futebol, que reuniu mais de 500 pessoas no local. O seu paradeiro permanece desconhecido.

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Entenda o caso

No dia 2 de agosto de 1973, Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, então com 10 anos de idade, estava na residência em que a família morava, na rua Alice, Zona Sul do Rio de Janeiro, quando um homem mascarado e armado invadiu a casa e o seqüestrou. A mãe e quatro dos seus seis irmãos assistiram à cena.

Antes de fugir, o seqüestrador deixou um bilhete exigindo 100 mil cruzeiros de resgate, o equivalente, hoje, a cerca de R$ 50 mil. A polícia montou uma operação para prender o bandido no local combinado para a entrega do dinheiro, mas ninguém apareceu para buscá-lo.

Desde então, o desaparecimento de Carlinhos se transformou em um mistério sem solução. Três pessoas chegaram a ser presas e apresentadas como responsáveis pelo seqüestro, mas a própria polícia assumiu dias depois que se tratava de um engano.

O pai de Carlinhos, João Mello da Costa, também chegou a ser apontado como suspeito e acabou preso, mas foi liberado por falta de provas. Ele se separou da esposa em 1976.

Em março do ano seguinte, uma irmã de Carlinhos apontou Sílvio Azevedo Pereira, funcionário do laboratório do pai, como autor do crime. Condenado a 13 anos de prisão, ele recorreu e foi absolvido.