O 12.º caso de leishmaniose visceral humana em Bauru foi confirmado ontem pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Trata-se da primeira notificação da doença neste ano, embora o diagnóstico tenha sido feito em outubro de 2003, ano em que o município registrou as primeiras contaminações. Em cães, o total de registros positivos chega a quase 500, sendo que cerca da metade deles ainda não foi sacrificada.
A nova paciente tem 46 anos, reside atualmente no Estado de Minas Gerais (MG) e está tratando a doença em São José do Rio Preto (210 quilômetros de Bauru). Ela é ex-vizinha da criança de 11 meses que foi internada com leishmaniose no final do ano passado. A família do bebê mora nas imediações da Praça Primaz Chujiro Otake, a Praça do Relógio, na região oeste de Bauru.
A leishmaniose é transmitida a cães e humanos através da picada do mosquito palha infectado. A doença, que tem tratamento, pode levar à morte porque debilita o sistema imunológico do paciente. A diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da SMS, Maria Helena Abreu, explica que a mulher apresentou os primeiros sintomas em agosto de 2003, porém a época da contaminação é desconhecida.
“O período de incubação varia de dez dias a dois anos. O trabalho de busca ativa (de novos casos) na região foi realizado quando o 11.º caso (da criança) foi identificado. A coleta de exames em cães também foi executada, assim como o trabalho ambiental (conscientização, limpeza e notificação dos proprietários de imóveis residenciais ou comerciais)”, diz Abreu.
O mosquito transmissor da doença procria-se no lixo orgânico em decomposição, em quintais e terrenos baldios e fezes de animais. Para aumentar o controle da leishmaniose, o DSC vai ampliar sua atuação trabalhando num raio de 200 metros em torno de cada caso positivo em cachorros. Os casos em cães estão espalhados por toda a cidade.
Para cumprir o objetivo, a Secretaria Municipal de Saúde dispõe apenas de quatro duplas de agentes para percorrer os bairros, além de um agente de saneamento e um ajudante geral que têm como atribuição correr os endereços para recolher os animais comprovadamente infectados, que são sacrificados no Centro de Controle de Zooneses (CCZ).
“Até o ano passado, os casos em animais eram raros e pontuais. Não tínhamos uma estrutura para trabalhar numa situação (de emergência) que a gente jamais viveu. Mas a gente sabe que é difícil fazer o controle trabalhando desta maneira”, afirma o veterinário e chefe da seção de Controle de Zooneses da SMS, José Rodrigues Gonçalves Neto. Ele não descarta novas contratações de agentes futuramente.
• Serviço
Outras informações podem ser obtidas através do telefone (14) 3235-1215.
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Sacrifício
De acordo com diretor da seção de Controle de Zoonoses, José Rodrigues Gonçalves Neto, o processo de controle da doença também é difícil porque muitos proprietários de cães infectados impedem o sacrifício dos animais. “É um trabalho moroso porque temos de convencer as pessoas a nos entregar o cão. Quando ele já está com sintomas é mais fácil, mas quando o caso é assintomático tem gente que não deixa", conta.
Por pensar desta maneira, Silvania Aparecida Gonçalves entregou seus dois cães para a eutanásia. Um apresentava sintomas e o outro não. “Passei mal e chorei o dia inteiro, mas é uma responsabilidade muito grande. A cabeça da gente não deixa esconder (os cães doentes), parece que estamos cometendo um crime”, desabafa.
Adotou o mesmo procedimento Rosa Maria Romero dos Santos. Ela tinha três cães, sendo que um deles morreu antes do DSC fazer a coleta de sangue. Dos outros dois, um teve a doença confirmada e foi entregue aos agentes da SMS.
“Nós e o Tony sentimos muita falta deles. O Tony chora até agora porque sente falta dos cachorros. Foi uma decisão consciente da família”, comenta Rosa.
Quem age de forma contrária e coloca a coletividade em risco pode ser multado em até R$ 2 mil, explica a diretora do DSC, Maria Helena Abreu. Porém, de acordo com ela, nenhuma multa foi lavrada até hoje. A SMS também pode recorrer aos meios judiciais para garantir a eutanásia dos animais, ressalta o advogado da organização não-governamental Friends of the Earth, Euríale Galvão.
“Se existe risco (à coletividade), a saúde pública está acima da decisão individual. Em outros países, a leishmaniose tem cura”, afirma.
Neto discorda veementemente e descarta a cura em animais. Ele informa que já foram coletados o sangue de aproximadamente 2.400 cães. O resultado do exame sai em cerca de 40 dias. Neto espera para esta semana a resposta dos quase 200 exames realizados em cães no início do ano. A análise é realizada em São Paulo pelo Instituto Adolfo Lutz.