08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Selva de Pedra


| Tempo de leitura: 3 min

Outro dia eu li uma frase que me chamou a atenção: “Existem somente duas maneiras de sobreviver neste mundo: através de nosso próprio trabalho ou às custas das fraquezas dos outros” (Jean de la Bryère). Quanta profundidade nessas poucas palavras. Algo que nos convida a uma reflexão mais aprofundada acerca dos relacionamentos. De início, parece tão óbvio afirmar que se uns têm demais é porque alguns têm de menos..., mas no corre-corre da vida essas coisas vão passando despercebidas porque quem está “lá em cima” definitivamente está longe de quem está “lá embaixo”, e não enxerga as mazelas de quem é privado de quase tudo.

Na selva sobrevive o mais forte. Os fracos vão sendo automaticamente descartados porque não conseguem alcançar longa existência. Algumas pessoas referem-se ao mundo como uma grande selva de pedra, onde “quem pode mais chora menos”. Isso ocorre porque, infelizmente, falta amor ao próximo. Já faz tempo que os conceitos individualistas e hedonistas vêm sendo trabalhados pela mídia no intuito de aumentar a procura pelos bens de consumo, tidos como fontes de felicidade. Hoje em dia, é difícil você encontrar alguém que acredite na possibilidade de ser feliz sem ter uma televisão em casa. Várias pessoas vinculam seu status e satisfação à marca do carro que dirigem. Muitos simplesmente acreditam que não irão sobreviver ao conserto de seu microcomputador.

Assim, perceba, inicialmente cria-se um anseio na pessoa, fazendo-a imaginar que só poderá ser feliz se tiver aquele produto. A crença na propaganda faz com que o anseio transforme-se em desejo real e a pessoa mobiliza-se para adquirir o que parece ser a solução para os seus problemas. Para conseguir o que pretendem, muitos passam por cima de seus valores, endividando-se por exemplo, ou utilizando-se da famosa “lei de Gérson”, onde o que importa é sempre tirar um proveito sobre o outro. O mundo vai se tornando cada vez mais egocêntrico, já que o importante é o “eu” e não a coletividade.

Ninguém repara que, para ganhar, alguém tem de perder. Ou se repara, acha bom que isso suceda a terceira pessoa e não a si mesmo ou alguém de sua família. As diferenças sociais e financeiras vão se exacerbando, entretanto, os anseios humanos continuam muito parecidos, uma vez que são controlados todos pelo mesmo engenho. Aquele bandido lá tem uma cara conhecida ou, pra dizer a verdade, não tem cara de marginal, é até bonitinho. Tem os cabelos descoloridos, um tênis de marca, uma roupa “manêra”.

Na casa dele também têm TV, ele come nuggets de frango e o último carro que roubou é um Audi A3. Ele realmente está na “crista da onda”. Gozado; muitos de seus desejos são iguais aos meus. A gente até que é bem parecido. Só acho errado ele pegar o que não é dele mas, pensando bem, acredito que se eu não tivesse nada, também me arriscaria um pouco para dar umas voltinhas num Audi A3, afinal, esse carro é um “estouro”. Aposto que ele assiste Cidade Alerta durante a semana e Faustão aos domingos...

Maria Regina Canhos Vicentin