Os indicadores econômicos nos mostram perspectivas animadoras para este ano. O real encontra-se relativamente forte ante o dólar, a ponto de o Banco Central ter atuado recentemente para evitar sua excessiva apreciação. As Bolsas de Valores refletem as volumosas entradas de recursos externos e, já no primeiro dia do ano, sofreram valorização recorde, superior a 4%. O índice Bovespa bateu recorde histórico há algumas semanas. O risco Brasil caiu para cerca de 500 pontos, uma melhoria quase inacreditável se lembrarmos os 2.500 pontos atingidos durante a transição para o governo do PT. O ajuste fiscal superou a meta de superávit de 4,5% do PIB para 2003, as reservas internacionais começam a crescer, o saldo comercial de dezembro foi de US$ 2,8 bilhões, alimentando um resultado positivo anual inédito de cerca de US$ 25 bilhões.
Os indicadores financeiros não são menos animadores. Os juros básicos da economia retrocederam a patamares de 16% ao ano, com previsão de queda ao longo de 2004. Os juros aos tomadores e os “spreads” bancários finalmente começam a ceder. E, na esteira desses indicadores positivos, os índices de preços convergem para as metas estabelecidas pelo Banco Central. O IGP-M acumulado nos 12 meses anteriores, que fora de 21,5% em setembro, caiu para 7,17% em janeiro.
De fato, os fundamentos macroeconômicos da economia brasileira sofreram dramática reviravolta, tornando-se fonte de otimismo e de expectativas altamente favoráveis para 2004.
Mas e o lado real da economia? Como está a taxa de emprego? Como vêm se comportando a demanda agregada, os salários reais e as vendas no comércio?
Enquanto as sondagens apontam resultados positivos nas expectativas de vendas e de produção para 2004, as previsões para emprego e renda são sombrias. Apesar do acúmulo de notícias auspiciosas ao longo do segundo semestre do ano passado, todos os indicadores de desemprego mostraram elevações constantes. A taxa média de desemprego aberto, que foi de 7,2% em 2002, ultrapassou os 12% no ano passado. O rendimento médio do pessoal ocupado caiu quase 9% ao longo de 2003.
Há que lembrar, contudo, que a questão do emprego não é tão simples. A globalização, as novas formas de organização da produção e as mudanças tecnológicas criaram um cenário em que a produção cresce em todo o mundo sem que o emprego cresça na mesma intensidade. A absorção do desemprego não mais ocorre “pari passu” com o crescimento da produção. Mesmo nos países desenvolvidos, onde o desemprego vem caindo, foram necessários ajustes estruturais significativos em termos de educação e capacitação profissional. O que essas comparações nos sugerem é que a economia vai muito bem para os ricos e mal para os pobres.
Como se vê, a promessa do presidente Lula de se criar 10 milhões de empregos não será cumprida.
O autor, Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, é doutor em Economia pela Universidade Harvard, professor titular e vice-presidente da FGV e secretário das Finanças de São Bernardo do Campo.