A festa de carnaval é uma festa interessante. Deixando de lado as origens e a evolução a partir das festas ao deus romano Saturno, podemos observar que todas as sociedades humanas, desde o princípio, sempre festejou a vida, a fartura. Faz parte da humanidade celebrar todos os fatos importantes de nossa vida. Comemoramos nosso nascimento, nosso batismo, nossa formação escolar, etc. Porém, a vida é muito difícil para quase todos. Escapam, certamente, os corruptos e desonestos (contudo, o isolamento devido ao seu caráter, mau, deixa-os com conforto material mas sem paz interior, ou seja, saúde mental a zero). Para compensar a dureza da vida, nosso cérebro cria “escapes”, ilusões, que nos fazem crer que somos importantes preenchendo a infelicidade presente e constante.
A frustração faz parte do nosso dia-a-dia. Conseguimos realizar pouco daquilo que sonhamos e planejamos. E em um mundo em crise e rápidas mudanças como o nosso, torna-se impossível não viver frustrado. Sonhamos com uma vida repleta de conforto, segurança, amor, respeito, amizade. O nosso mundo consumista deturpa os nossos sonhos, fazendo-nos perder os limites da realidade, ou seja, sem possibilidades de realizar os nossos sonhos, eles se tornam ilusões, fantasias. Talvez esteja aí o segredo do sucesso: conhecer nossas limitações e sonhar aquilo que saibamos como realizar. E valorizar o sucesso que obtemos.
E quantas lamentações sobre o tempo perdido na juventude, na escola, na escolha da profissão. O tempo, abençoado ou maldito de acordo com o seu dono, é a maior causa dos fracassos. E uma vez perdido...
Assim aparece a insatisfação no trabalho, na família, na igreja e no lazer. Haja frustração! E a frustração é o principal motor dos vícios, chamados de pecados capitais há milênios. E, atualmente, com a química moderna, hajam drogas alucinógenas...
Porém, o pior frustrado é o que não luta. Nunca acredita na vitória, no sucesso, sempre tem explicações para sua inércia e impossibilidade de mudanças. Esses não melhoram nossa sociedade em nada. Não sabem eles que os vitoriosos, enquanto obtém uma única vitória, sofreram e sofrem inúmeras derrotas.
Sem ter como extravasar tanta frustração muitos acabam criando fantasias, ocupando seu cérebro com atividades diversionistas. Todos nós, para manter nossa saúde mental, precisamos desenvolver atividades que nos tragam satisfação e alegria. Rezamos, dançamos, nadamos, cantamos, pintamos, lemos, amamos, por uma simples razão: é agradável! O prazer nos faz sentir melhores.
Porém, a diversão descontrolada, excessiva, é um agravante, torna-se uma fuga dos problemas, o que é pior. E aí surge o carnaval, uma festa popular, tomada por alguns (a maioria?) para viver a fantasia. É o momento quando se mascara e se fantasia, assumindo outra personalidade, extravasando os fracassos. O excesso de exercícios libera endorfinas no cérebro que produzem prazer. Embora dançar seja agradável, já ouviram um Spiritual, é impossível não erguer os braços e sair chacoalhando a pança. O excesso é que é o sintoma. Embora o carnaval seja de apenas alguns dias, existem alienantes que funcionam o ano todo. Já observaram aquelas igrejas fundadas para ser meio de vida dos pastores, aquelas do “xô satanás”? É carnaval o ano todo! Gritam tanto que saem aliviados de qualquer problema. É, o carnaval não é ruim!
E fica a dúvida: será que no carnaval vestimos uma fantasia, ou simplesmente nos despimos daquela que usamos o ano todo? Seremos autênticos nestes dias ou somos durante o resto do ano? Se usamos “fantasias” pode ser que alguma coisa não esteja bem dentro de nós. Aprendamos com o Delfos: conheça a ti mesmo! Ou morra de infelicidade.
O autor, Mário Eugênio Saturno, é Tecnologista Sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva.