Ampla, com árvores frondosas, tenho ipês, amarelo e roxo, também flores na primavera, até goiabeira. Tenho ruelas, obelisco com brasão e Cruz de Malta. Talvez sem igual, homenageio um país. Sou a Praça Portugal. Saudades do “Rafael Maurício”, com seus meninos brincando; bicicletas, mangas, pipas, patins, aeromodelos; das famílias passeando; do “Refrigerantes Bauru”; das noites tranqüilas e silenciosas.
Sinto que não tenho servido às finalidades originais para as quais fui projetada. Moradores estão indo para longe, me abandonando. Triste, mal acompanhada, vilipendiada, desprotegida e até mesmo com baixa reputação, será meu fim.
Mas, creio que sei o porquê.
Estou me tornando notívaga. Sem dormir nas madrugadas, perambulo, sem rumo. Tenho convivido com vícios. Sinto-me bêbada, drogada, prostituída, fétida, muito barulhenta, com poluição sonora e visual. Minhas calçadas e gramas são disputadas; o asfalto pintado; quadra e espaço de rua servindo a particulares; marginais estão se achegando e agindo, até armados.
Mas a culpa não é minha. Sempre quis ser moderna, iluminada, e silenciosa, ter muitas árvores e flores, assentos, com sombra, para os admiradores da natureza. Gostaria de ser bem tratada, não como propriedade de alguém, mas como bem público, de todos.
Os favorecidos, catalisadores de meus desvios, devem estar protegidos. E eu, como fico? Jogada ao relento inóspito de desregrados? Até quando? Não quero ser reconhecida por estimular vícios, desrespeitos, barulhos, poluição e ações indevidas. Desejo ser, apenas, preservada e respeitada. Tenho admiradores que sofrem comigo. Socorram-me. (Luiz Buccalon Netto - RG 2.906.210 - buccalon@uol.com.br)