08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A língua


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Era uma vez um escravo muito dedicado ao seu senhor. Muito inteligente, ele gostava de ouvir os sábios e observar a natureza e sua relação com a vida humana. Corria a notícia de que ele, antes de ser escravo, fora um rei muito bondoso e humano. Aprisionado e vendido como escravo, chamava-se Esopo. Um dia, seu dono estava oferecendo um banquete em casa e quis colocar Esopo em dificuldade. Chamou Esopo e, diante de todos, entregou-lhe algumas moedas e pediu-lhe que fosse ao mercado comprar o melhor que havia para se comer. Todos sabiam da capacidade de Esopo e ficaram na expectativa da volta do escravo.

Transcorridos alguns minutos, entra Esopo no nobre salão e, diante de todos, apresenta ao rei uma grande língua. O espanto foi geral.

- O que é isso? - disse o rei em alta voz. - Tire essa coisa nojenta daqui! Como ousa me afrontar diante de meus convidados? Explique-me!

- Senhor, tu me pediste que buscasse o melhor que há no mercado para ser comido. Eu te trouxe uma língua. É ela responsável pela nossa comunicação. É através dela que Vossa Majestade pode me dar uma ordem e elogiar os convidados. É através dela que os sábios e artistas nos transmitem as sabedorias de Salomão. Como vês, a língua é a melhor coisa que há. Todos ficaram admirados, em silêncio, ouvindo Esopo. O rei envergonhado diante da sabedoria de Esopo, deu-lhe outra tarefa:

- Então, agora, volte ao mercado e traga-me o que há de pior para ser comido. Entregou outras moedas a Esopo. Esopo inclinou-se reverentemente e saiu. Pouco tempo depois retornou com outra língua na mão.

- O que é isso? Outra língua? Mas tu não disseste ainda há pouco que a língua era o melhor de se comer?

- Sim. É verdade. A língua também é o pior que há de se comer. É a língua usada para a discórdia e a inveja. A língua, quando utilizada para maldizer e caluniar, provoca divisão e marginalização. Quando ela é mentirosa, é a pior coisa que há... Dizem os contadores de história que Esopo, um dia, ganhou a liberdade por causa da sua sabedoria, mas por causa da mesma sabedoria ele sempre se fez “escravo do amor”. (Quem conta um conto, aumenta um ponto.) (Izabel Ramos)