30 de maio de 2026
Geral

'Carnaval levará anos para voltar'

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 10 min

Desde 1998 Bauru não tem um grande Carnaval de rua. A polêmica da realização do desfile, a mobilização do poder público e das próprias escolas de samba são questionadas a cada início de ano, mas tudo continua sem uma solução prática e os bauruenses sem a maior festa popular do mundo.

Dois dos mais engajados carnavalescos nascidos e criados em Bauru, Paulo Madureira, 48 anos, 30 anos de samba, vereador, diretor de carnaval da escola Acadêmicos do Cartola, e Ricardo Carrijo, 47 anos, gerente de qualidade e produtividade de uma das maiores empresas de Bauru, professor universitário, ex-diretor da Mocidade Independente e filho do carnavalesco que dá nome ao Sambódromo bauruense, se orgulham de terem sido, por muitas vezes, campeões do carnaval de rua de Bauru, mas lamentam os rumos que a festa tomou.

Para Madureira, em função dos anos seguidos sem a festa, Bauru vai levar dez anos para voltar a ter um Carnaval como o de 1998. Apesar da rivalidade entre as escolas que representam, Madureira e Carrijo acreditam que só uma união maior entre as agremiações e uma vontade determinante da prefeitura pode trazer de volta os velhos desfiles e a movimentação concorrida nos clubes. Nesta entrevista, eles rasgam o verbo e falam do sonho de colocar os blocos e escolas nas ruas já no próximo ano.

Jornal da Cidade – Qual o primeiro caminho para retomar o Carnaval?

Paulo Madureira – Eu entendo que o primeiro caminho é vontade política, principalmente do governo municipal. Eu entendo assim, esquecendo a parte financeira disso tudo. A prefeitura precisa determinar: vai ter Carnaval ou não vai ter Carnaval. As regras são essas: os desfiles serão realizados no Sambódromo, nos dias tal e tal, vão desfilar as escolas e os blocos, vai ter subvenção da prefeitura ou não vai ter. O próximo prefeito definiria isso aí. E se não tiver verba, vamos traçar um plano para se arrecadar a verba o ano inteiro seja com shows ou cotas, mas antes de tudo precisa ter a vontade política do mandatário, que assumirá a prefeitura e deverá determinar regras: data, estrutura, jurados. Agora se vai ter subsídio, é outro problema.

Ricardo Carrijo – O caminho é haver vontade de realizar a festa e entender que esse é o traço cultural mais presente na população brasileira e, obviamente, na população bauruense. Porque cultura é a totalidade dos bens materiais e espirituais de uma sociedade. E eu acho que o Carnaval é um dos bens culturais mais relevantes que os brasileiros possuem. Então, a gente respeita que hajam outras atividades culturais em outros segmentos da sociedade, mas essa é a festa e o traço cultural que reúne e agrega o maior número de pessoas. Isso tem que ser respeitado. É a festa dos brasileiros! Eu acho que existe uma miopia em não enxergar essa festa como uma manifestação cultural expressiva.

JC – E que alternativas você vê nesse caminho, nessa retomada?

Carrijo – Tudo passa por um processo de organização. A gente, que no passado trabalhou e conseguiu realizar carnavais por quase 20 anos juntamente com um grupo grande, sabe que o ingrediente básico é a organização. É necessário que haja planejamento, que hajam pessoas que possam colaborar. Eu concordo que não seja uma festa que deva empenhar muitos recursos públicos, porque esses recursos também são escassos. Isso se entende. Mas não é uma questão de dar dinheiro para as escolas, mas de organizar o trabalho das escolas ao longo do ano porque a própria atividade é uma geradora de recursos. É uma atividade que, se bem trabalhada, pode ser auto-sustentável. Na época em que trabalhávamos com a Mocidade Independente (da Vila Falcão), uma das metas que a escola sempre possuiu era ter a menor dependência possível do poder público.

JC – E porque isso acontecia em outros tempos e hoje não?

Madureira – Mas vamos fazer um show para quê? Trazer Neguinho da Beija-Flor como já fizemos, fazer jantares e bailes para quê? Se não se tem vontade política nem diretrizes para por o Carnaval na rua, onde vai parar esse dinheiro? É isso que a secretaria (de Cultura) precisa dizer: vai ter Carnaval em 2005. Vai ter subvenção? Não adianta dar R$ 5 mil para uma escola ou outra e dizer que vai ter Carnaval popular.

Carrijo – Eu acredito que essas ações que foram tomadas, de se suspender a festa num determinado ano, acabam desarticulando o grupo que se reúne em torno da causa. Escola de samba é, antes de tudo, causa e paixão. As pessoas escolhem uma entidade como se fosse um clube de futebol e acabam abraçando aquela causa e aquela paixão. Na medida em que se secciona a festa, há naturalmente uma desagregação em torno daquele objetivo e para ser retomado é bastante complicado.

JC – Você acredita que as escolas, de um modo geral, ficaram condicionadas à liberação dos recursos da prefeitura?

Paulo Madureira – Primeiramente, para todas as escolas de samba de Rio e São Paulo ou qualquer cidade do Interior, existe uma subvenção municipal. Em Bauru também não foi diferente. Mas nunca foi o suficiente para todas as escolas. Agora o que precisa se fazer? É duro falar da Cartola porque ela está hoje um pouco acima das outras escolas e tem condições de buscar patrocínios e sair, mas não adianta só a Cartola sair. Não é por aí. A prefeitura tem que ajudar. As escolas que não têm quadra tem que ter uma quadra, saber onde está deficiente a escola. Mocidade, Cartola e Azulão, por exemplo, têm necessidades diferentes, e o que elas promovem pode não ser suficiente. Cada uma tem uma peculiaridade. Precisamos de um secretário de Cultura que seja a fim de fazer o Carnaval ou que coloque uma pessoa para fazer isso. Precisa ajudar a traçar metas para que as escolas sejam totalmente independentes da prefeitura. Eu entendo também que o show tem que ter uma parte custeada pela prefeitura. Sempre foi. Só neste ano não está sendo. A gente não quer o dinheiro da saúde, do social, da máquina, mas também tem o dinheiro da cultura. Agora onde vai este dinheiro? Ele é uma pessoa popular e gosta do Carnaval e quer uma festa para as pessoas mais necessitadas ou ele quer uma cultura mais elitizada? É o que está sendo feito nos últimos anos.

Carrijo – Em determinados momentos da história recente da cidade tivemos grandes carnavais com participação razoável da prefeitura. A própria festa gerava recursos, as atividades desenvolvidas nas quadras conseguiam reunir um bom volume de recursos. Talvez entrou-se num círculo vicioso das escolas cobrarem o poder público, do poder público cobrar as escolas e não haver um rompimento dessa maneira de pensar.

JC – Nesse meio de campo, como fica a questão da Lesec (Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas)? Ela sempre teve uma postura muito morna em relação ao Carnaval, até mesmo de mobilizar as próprias comunidades carnavalescas, bem como ter uma postura firme diante do poder público? Ela não deveria ser mais atuante?

Madureira – Eu endento a Lesec sob dois parâmetros: quando foi criada era um mal necessário e a prefeitura precisava de um âmbito fiscal para liberar o dinheiro para uma associação e não mais para as escolas. Eu entendo que no começo foi muito bonito, muito certo, mas a Lesec precisava evoluir e crescer, mas começaram todos os problemas do Carnaval de Bauru. Ela não teve o apoio do prefeito e da população para poder crescer. Eu acredito que todas as escolas também não tiveram apoio e não se sentaram para organizar a Lesec. Mas também deixar tudo em cima da Lesec é muito difícil. Ninguém quer assumir e é muito fácil criticar, socar. É mais fácil acusar, do que fazer sua parte.

Carrijo – Eu prefiro nem comentar essa questão. A história e os fatos evidenciam estes pontos e eu, sinceramente, prefero não comentar até porque há algum tempo eu me afastei da diretoria efetiva. A última vez que dirigi escola foi por volta de 98. Mas eu vou para a vila e desfilo. Na medida do possível, a gente sempre que é chamado participa e colabora em especial com a Mocidade, que é a escola do nosso coração. A amizade com as pessoas continua, mas em função de não haver o evento maior acaba tendo essa desintegração.

JC – Este ano em que pé estão as suas escolas?

Madureira – Nós, da Cartola, temos condições de fazer um Carnaval este ano, mas não é por aí. Não podemos pensar numa escola, temos que pensar num contexto, nas outras escolas. A Cartola está pronta, tem enredo, samba de enredo, tem capital e recursos humanos para fazer o Carnaval, mas onde vai ser o Carnaval? Quem serão os jurados, vai ter som, como vai ser? É isso que eu digo: a prefeitura nem isso nos dá. Não temos o poder de chegar e desfilar no Sambódromo.

Carrijo – Atualmente, quem tem se dedicado à escola (Mocidade) é o Jaime Silva, que foi presidente por vários anos e tem tentado aglutinar as pessoas para haver pelo menos a realização de um desfile lá no bairro. O que eu gostaria de dizer é que algumas escolas sobrevivem de pessoas e grupos que se dedicam porque o trabalho sempre foi voluntário e apaixonado. Mas a paixão existe na medida em que existe o objetivo maior em se ter aquela disputa, de ir para o Sambódromo e criar aquele clima de rivalidade positiva.

JC – Como você se sente tendo o pai que dá nome ao Sambódromo de Bauru, que é o segundo do mundo e está no estado em que está?

Carrijo – Muito triste, eu acho que quando chega essa época aquilo deveria estar iluminado, cheio de gente, porque a gente já vive o ano todo uma vida bastante estressada, uma vida bastante tensa. O brasileiro sofre bastante no dia-a-dia. Então, essa é uma época em que ele deveria aproveitar para se divertir um pouco mais com toda a infra-estrutura montada no passado.... Isso nos deixa tristes.

JC – Mas você acredita na retomada do Carnaval de rua de Bauru ou acha que isso não ocorrerá nunca mais?

Madureira – O “nunca mais” é muito pesado. Mas eu insisto que depois do penúltimo ano que teve Carnaval - pois o último foi um fracasso - vai demorar pelo menos dez anos para se fazer outra festa naquela condição, isso se conseguirmos ter Carnaval o ano que vem. Eu acredito também que tudo vai da motivação e se os veículos de comunicação encamparem a idéia vai aumentar esse incentivo. Antigamente era assim, mas de repente se colocou o Carnaval contra a saúde, a educação e não é assim. Nós temos que ter saúde, educação e o Carnaval também.

Carrijo – Se nós tivéssemos um Carnaval de rua forte, até mesmo o Carnaval dos clubes, que se perdeu um pouco, reaqueceria. Se você faz uma fantasia para o Sambódromo, depois você vai passear no clube e vice-versa, da mesma forma a turma dos blocos que se montavam nos clubes ia para a avenida. Era uma simbiose. As pessoas viajam e vão desfilar no Rio e em São Paulo justamente porque não se tem mais Carnaval em Bauru e isso, até do ponto de vista econômico, é negativo para a cidade porque o dinheiro não circula. Mas há uma inércia, um comodismo e uma imobilidade muito grandes em relação ao fazer. Mas acredito que no futuro, mudando as pessoas, Bauru tem tudo para voltar a ter uma festa bonita. É mais uma questão de atitude e não de recurso.