As projeções de aumento na produção nacional de bens de capital para 2004 e os dados da produção interna e das importações de máquinas na segunda metade do ano passado são indicações importantes de que a economia está finalmente se recuperando. Não é ainda uma recuperação muito robusta, mas o interessante é que ela está prosseguindo: os primeiros números revelados sobre o quarto trimestre de 2003 mostram que a economia cresceu muito provavelmente entre 3% e 3,5% no período, em relação aos trimestres anteriores. Isso já representa um grande avanço estatístico, pois mesmo que a economia permanecesse no nível de 31 de dezembro último, já teríamos aí assegurado um crescimento do PIB de 2% a 3% para 2004.
O aumento sistemático das importações de bens de capital e a confirmação de encomendas internas de R$ 6 bilhões ao setor de máquinas são uma referência para os investimentos, estão diretamente ligados ao volume total de investimentos no País. Todos sabemos que o investimento de hoje é a produção de amanhã e o emprego de depois de amanhã. Esse é o momento adequado para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva se aproximar do setor produtivo, mostrando aos empresários que também é capaz de correr alguns riscos para retirar gargalos ao crescimento . Não existe nenhuma razão para aceitar a política absolutamente conservadora do Banco Central (BC), mantendo altas taxas de juros ao interpretar equivocadamente sinais de inflação nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. É preciso ter a coragem de desonerar efetivamente os bens de capital e alongar prazos de recolhimento dos impostos federais, induzindo os Estados a seguirem o mesmo caminho.
Sabemos também que vem aumentando a distância que decorre entre a retomada da produção e a recuperação dos níveis de emprego no País, devido às implacáveis exigências de utilização da tecnologia poupadora de mão-de-obra. Isso acontece em toda a parte, nos Estados Unidos, nos recentes surtos de expansão da economia, e aconteceu no Brasil nos raros soluços de crescimento da última década.
Significa que precisamos crescer bem mais rápido do que a expectativa que temos hoje e bem mais do que 3,5% ou 4% nos próximos anos, se quisermos acolher a mão-de-obra que chega hoje ao mercado e começar a reduzir os níveis de desemprego acumulados durante todo um ciclo perverso de estagnação que nos aprisiona. Do qual só vamos nos livrar quando perdermos definitivamente o medo de crescer.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.