08 de julho de 2026
Bairros

História explica demanda reprimida

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Há muita história a ser contada sobre as inundações de Bauru. É um problema antigo na cidade que existe, no mínimo, desde a década de 40. De acordo com Maria Helena Rigitano, coordenadora da comissão elaboradora do Plano Diretor, para explicar as enchentes de hoje é preciso olhar para trás.

Ela conta que, desde a década de 40, já se observava que as travessias (trechos canalizados do córrego sob cruzamentos de vias) não suportaria grande volume de água. Ainda hoje, locais que representavam problema nos períodos de chuva continuam sendo incômodos.

“Não é problema de hoje. A gente tem esses problemas há décadas e não foram totalmente resolvidos. A proposta do plano de macrodrenagem está resolvendo totalmente”, afirma Maria Helena.

Em 1950, a quantidade de ruas em Bauru já era grande, mas ainda não havia nenhum tipo de estrutura de drenagem, como galerias de águas pluviais. Não havia exigências por lei.

Somente em 1979 uma lei federal determina que o loteador seria responsável por entregar o loteamento com, no mínimo, três obras de infra-estrutura. De acordo com Maria Helena, não funcionou.

“Nos primeiros loteamentos de Bauru, eles consideravam que abrir ruas era uma infra-estrutura. A segunda seria demarcar quadras e lotes e a terceira seria implantar rede de água. Na verdade, ele abriu a rua, colocou água e vendeu o lote”, diz a coordenadora.

Foi em 1982 que uma lei municipal determinou explicitamente a exigência de rede de água, rede de esgoto, rede de energia elétrica, guias e sarjetas, galerias de águas pluviais e arborização. Para algumas regiões da cidade, também era exigido pavimentação e iluminação pública.

“A exigência é muito recente, se você pensar na ocupação urbana. A gente já tinha 90% da cidade implantada quando veio essa regra”, enfatiza Maria Helena.

Ela reforça que a demanda reprimida de serviços de drenagem é grande. Defasada, a drenagem é uma das obras mais caras. Já água e esgoto, por exemplo, a prefeitura oferece para quase 100% da população.

As obras implicam em tubulações maiores que as de água e esgoto e exigem maquinário para instalação. “É uma tubulação que a máquina tem de carregar, escavar etc. É uma obra de muito mais custo”, expõe.

Mesmo após as exigências por lei, as obras de galerias para águas pluviais não eram vistas com bons olhos por loteadores e administração pública porque, depois de pronta, elas não “aparecem”.

“Quando enterrou, ninguém mais lembra que foi feito aquele serviço. Em várias administrações passadas, não se investiu nada em drenagem porque não aparece. É mais fácil pintar de preto a rua e a população fica contente. Se destruir o asfalto, foi a chuva que destruiu? Não. Foi mal feito”, alfineta a arquiteta.

Outro aspecto que contribuiu para que as obras de drenagem fossem deixadas de lado durante anos é a ausência da diretrizes sobre esse assunto nos planos diretores anteriores.

De acordo com Maria Helena, o documento de 1996 indicava apenas a necessidade de elaboração de um plano de macrodrenagem para a cidade. Com as mudanças de administração, nada foi feito.

Já o Plano Diretor de 1967 nem isso previa. O assunto drenagem urbana não foi contemplado. A coordenadora da comissão atual acredita que, na época, tais obras não eram consideradas uma necessidade.

Outro erro, que também faz parte dessa longa história, foi implantar obras de drenagem subdimensionadas. As tubulações, de acordo com Maria Helena, não eram calculadas prevendo o crescimento da cidade.

Ela cita o exemplo da tubulação que passa sob o feixe de linhas do pátio ferroviário, canalizando o Rio Bauru. A obra foi feita no início do século passado e até hoje o local é considerado um ponto crítico em dias chuvosos.

“A Nuno de Assis só não inunda hoje porque o pátio ferroviário represa um pouco dessa água. Mas alaga todo o pátio ferroviário, com conseqüências sérias”, explica.