Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru estão desenvolvendo uma produção alternativa de energia elétrica. O novo modelo, chamado de portátil, vai permitir um fôlego ao sobrecarregado sistema existente atualmente no Brasil. “O País tem 95% de sua energia produzida por hidrelétricas, o que não é viável”, diz o professor doutor Antonio Carlos Dias Ângelo, docente do departamento de química da instituição e um dos integrantes da equipe de cientistas.
Ele salienta que a forma de produção e abastecimento atual gera uma série de riscos. O primeiro deles é o colapso energético. “Com a rede sobrecarregada, como a que temos hoje, o abastecimento fica vulnerável. Basta lembrar do que ocorreu há cinco anos em Bauru”, diz ele, referindo-se ao acidente que deixou boa parte do Brasil no escuro, em 1999.
Para tentar amenizar esse tipo de problema, Ângelo e sua equipe estão desenvolvendo um projeto que visa aperfeiçoar a proposta de geração de energia via célula combustível. “A nossa idéia é promover uma mudança total no sistema existente atualmente”, destaca.
Em vez de se utilizar megausinas para produzir esse tipo de produto, seriam construídas usinas muito menores, em vários pontos do País, sem depender de grandes empreendimentos e, principalmente, de água para funcionar.
Em outras palavras, o projeto se apoiaria na construção de fábricas de energia portáteis, em diversos pontos do País. “O próprio centro consumidor é quem produziria a energia para o seu consumo”, explica o professor.
Com relação aos custos desse novo sistema, Ângelo diz que o valor é muito relativo. “Se houver vontade política, pode sair muito mais em conta do que manter o sistema atual”, destaca.
Como funciona
As células combustíveis são como pilhas, formadas por dois eletrodos unidos por um condutor elétrico externo, geralmente um fio de cobre. De um lado, é colocado um combustível; de outro, um comburente. A reação entre eles é o que produz energia.
Ângelo explica que esse sistema foi criado há vários anos. No entanto, ele usava metanol como combustível, um produto altamente inflamável e que resultava em menor eficiência do sistema.
A equipe coordenada por ele está estudando uma maneira de aperfeiçoar o modelo existente. “A gente propõe usar o etanol no lugar no metanol”, destaca.
Este combustível, que nada mais é do que o velho conhecido álcool usado nos automóveis, produziria mais energia, gerando menos sub-produtos poluentes. Além disso, seria possível aproveitar uma estrutura já existente e que funciona razoavelmente bem: a que engloba a produção e a distribuição do etanol.
O problema é que a transformação desse tipo de combustível é mais complexa. Para obter maior eficiência e qualidade, a equipe de estudiosos está pesquisando materiais alternativos para interagir com o combustível. “Os resultados estão sendo bastante satisfatórios”, afirma.
Ângelo diz que a célula combustível tanto pode ser usada para produzir poucos megawatts de energia (suficientes para um laptop), quanto para alimentar um hospital, uma escola ou uma indústria. “A idéia não é acabar com a produção das usinas hidrelétricas, mas sim ter um modelo alternativo, que possa conviver com o já existente, diminuindo o impacto da sobrecarga atual.”
O professor ressalta que a utilização das células combustíveis ajudariam, inclusive, a montar postos de segurança nas fronteiras do País. “Atravessar a selva amazônica com os fios de alta tensão é um desafio. Usando o novo sistema, ficaria bem mais fácil. Era só montar uma pequena usina nos pontos distantes do País”, destaca.
Em prática
Para a célula combustível sair do papel e ser colocada em prática, seria necessário, primeiro, convencer o governo da real necessidade de se implantar esse modelo, segundo atesta Ângelo.
“Depois de todo o desenvolvimento tecnológico, precisamos ter vontade política para mudar o sistema já existente”, revela.
Ele diz que o ideal é que seja feita uma ação conjunta que unisse governo, universidades e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão que centraliza a ação das operadoras espalhadas pelo País.
Segundo o professor, a Petrobras até está empenhando esforços no sentido de desenvolver células combustíveis, mas falta tecnologia para isso. “A universidade tem condições de suprir essa lacuna. Não adianta cada um dar tiro para um lado. Tem de trabalhar junto”, afirma.