08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Dom Quixote e a clonagem


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Haverá relação entre o romance de Cervantes e a clonagem humana terapêutica? Conforme divulgação nos jornais, mais precisamente no dia 5 de fevereiro último, foi votado na Câmara dos Deputados o projeto de Biossegurança. Na redação final do projeto, ficou vetada (proibida) a manipulação de embriões humanos para fins de clonagem terapêutica e para qualquer outro fim. Espera-se que este projeto não sofra alterações ao ser votado no senado.

Houve reclamações contra o veto da clonagem, inclusive provenientes de pesquisadores da área da genética. Mesmo que isso possa soar quixotesco, é necessário mencionar alguns pontos envolvidos na questão da clonagem humana, dos quais, ao que parece, muito pouco tem se falado. O primeiro ponto é lembrar que para que se possa produzir um embrião, como o da ovelha Dolly, por exemplo, que morreu de envelhecimento precoce, são necessários aproximadamente 289 embriões, para que um sobreviva. A pergunta que fica é, o que se faz com os outros 288 embriões? Certos pesquisadores respondem argumentando que o embrião nos seus primeiros catorze dias de vida é, sim, um ser humano, mas de segunda classe, essa é a hipótese do pré-embrião. É preciso lembrar porém, que essa hipótese é amplamente rejeitada pela comunidade científica internacional.

Do ponto de vista ético a clonagem humana contraria não somente a ética cristã, mas também a ética laica, basta pensar no princípio de Kant, segundo o qual o homem é um fim em si mesmo, e não pode ser usado como um meio para se alcançar qualquer objetivo. (cf. Revista Cidade Nova – março 2001)

Se faltassem razões para abolir totalmente a idéia das pesquisas com embriões, bastaria mencionar ainda o fato de que se a lei permitir a clonagem humana, ainda que sob o nome de clonagem terapêutica, quem impediria clonagem reprodutiva? Quem poderia impedir que a manipulação genética caísse nas mãos de pessoas psicopatas e sem escrúpulos? Finalizando a argumentação sobre os aspectos negativos da clonagem humana, a pergunta é: para que desenvolver um embrião humano, ou milhares deles e depois matá-los, se é possível obter o mesmo efeito, através das células tronco? Ou seja, as células-tronco, (permitidas no projeto de lei de biossegurança, desde que extraídas de cordões umbilicais, medula óssea, ou sangue) têm o poder de se transformar em células capazes de reparar qualquer tipo de tecido, seja ele nervoso ou muscular.

A este ponto se tem novamente a semelhança com Dom Quixote, já que ele, mesmo depois de séculos, continua fascinando seus leitores, justamente por ser a caricatura do herói. Por que será que o herói exerce um fascínio até mesmo quando é satirizado? Será porque ele consegue ver o mundo com os olhos da criança que há dentro dele? Quando se fala em desenvolver a pesquisa com as células tronco ouve-se o argumento de que essa pesquisa não é viável comercialmente. Gostaria de lançar um convite aos pesquisadores e demais profissionais da pesquisa genética e de áreas afins, que divulguem as pesquisas com as células-tronco, que aliás, já foram testadas clinicamente com sucesso, que exerçam pressão junto aos grandes laboratórios para que as desenvolvam. O exemplo é como o dos automóveis, na década de 30, um automóvel fazia aproximadamente 3 Kilômetros com um litro de gasolina, e atualmente, porque a indústria automobilística entendeu que o petróleo é um recurso esgotável, também graças à participação da sociedade, os carros fazem até mais de 20 Kilômetros com o mesmo litro de gasolina.Para finalizar, não vamos ter medo de parecer quixotescos, a humanidade precisa da ciência, mas precisa também da ética.Vamos acreditar que o uso trágico da energia atômica no passado, e o uso desordenado dos recursos naturais no presente, não podem deixar de ter ensinado alguma coisa útil aos cientistas e à sociedade.Concluindo, a clonagem humana é a maior de todas as agressões à natureza, e como dizia o ditado: a natureza não se defende, se vinga.

Luiz Antonio Galvão de França - R.G. 6 960 830-1