08 de julho de 2026
Regional

Presos aprendem a ler e a escrever

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Saber ler e escrever sempre foi o sonho de Rinaldo Valdecir Gianeti, 34 anos. Na infância, ele não teve oportunidade, viveu sempre só com o pai. A mãe morreu no parto em que ele nasceu. Há poucos meses, conseguiu desenhar as primeiras letras segurando um lápis sobre a cartilha. Usou várias vezes a borracha, mas persistiu.

Se para muitos esta é uma situação comum, para Gianeti, ela é diferente, inusitada. Ele foi aprender a ler e escrever na cadeia, graças ao Programa de Alfabetização e Inclusão (PAI), criado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

A idéia de alfabetizar os presos teve como principal objetivo incluí-lo na sociedade de onde ele saiu por não ter respeitado a lei. Para a assistente técnico-pedagógica da oficina pedagógica da Delegacia de Ensino de Taquaritinga, Maria Antonieta Baliero Bari, o projeto veio para se encaixar ao maior objetivo de uma detenção: a readaptação social.

O desafio de alfabetizar presos foi encarado pela Faculdade de Ciências e Letras de Ibitinga (Faibi) que cedeu duas voluntárias, Sandra de Oliveira e Magali Parra. As estagiárias do curso de pedagogia não relutaram em aceitar a proposta e estão desde julho de 2003 ensinando os presos a ler e escrever.

A satisfação das “professoras” é algo visível, especialmente porque elas não esperavam tanta receptividade e respeito. Sandra de Oliveira, que cursa o último ano de pedagogia, confessa que seus pais se preocuparam quando ela decidiu entrar na cadeia para ensinar os presos a ler e escrever. “A imagem dos presos perante a sociedade é muito ruim. Eu acabei ficando com medo, num primeiro momento.”

O medo do primeiro contato terminou logo na primeira semana de aula. “Percebi que eles respeitam muito as pessoas que respeitam eles. As pessoas que os tratam com atenção. Eles se esforçam muito para não decepcionar a gente.”

A futura professora diz que é muito gratificante alfabetizar os presos. “Eles se sentem menos do que os outros por não saberem ler e escrever. Quando conquistam esse desafio, aumentam a auto-estima.”

Magali Parra é a outra professora voluntária do projeto. Três vezes por semana, ela deixa seus afazeres no período da manhã e entra na cadeia para numa missão muito importante, ajudar os presos na arte de decifrar letras e números. “Eu dou aula para aqueles que já sabem, ainda que mal, a ler e escrever.”

Além das aulas de português e matemática, previstas no manual seguido pelo programa, ela faz dinâmica de grupo e discute as normas de convivência. “As normas de convivência são discutidas por eles mesmos. São eles que decidem o que deve ser colocado em prática. Nada é imposto.”

Para ela, as aulas são importantes para que os presos despertem para uma realidade diferente daquelas que eles estão vivendo. “A cadeia tem um ambiente frio, duro. Para amenizar essa situação, nós conversamos muito.”

Ela confirma que o respeito mútuo é a receita para a boa convivência na relação professor-aluno. “Nunca tivemos problemas. Ficamos no pátio com 10 alunos, sem a presença dos carcereiros. Eles nunca mexeram com a gente.”

Ela confessa que, no início da tarefa, suas amigas se preocuparam. “Elas falaram sobre seqüestro, estupro, etc. Mas quando comecei a conviver com eles, percebi que eles precisavam de uma nova chance para mostrar que podem mudar.”