Determinação e ousadia é o que não falta para a jornalista Glória Maria Malta da Silva, a mulher negra e esguia que todos os domingos toma conta da tela da Globo para anunciar mais um furo de reportagem. Com mais de 20 anos de profissão, ela se intitula uma leoa quando está à procura de uma informação, mas é humilde para aprender uma nova lição a cada caso. Jornalismo é a sua razão de ser.
Ela inaugurou o jornalismo participativo, em que o jornalista deixa a posição de narrador para ser sujeito da ação, e se orgulha de ser a primeira repórter negra da Rede Globo - hoje é a repórter mais popular da emissora.
Em matérias pelo Fantástico, já entrevistou presidentes e astros da música, como Julio Iglesias e Roberto Carlos, de quem se tornou amiga, e já conheceu mais de 50 países.
Sua paixão é escrever e diz que, quando não puder mais ir ao Himalaia, vai se tornar escritora.
Mas enquanto tem energia de sobra, ela corre atrás da notícia e da glória, em busca de algo inédito ou perseguindo histórias que cobriu anos atrás, como o caso “Carlinhos”, que 30 anos depois do ocorrido trouxe Glória para apurar fatos em Bauru, nos últimos dias.
Em meio à expectativas, encontros e exames de DNA, a musa do jornalismo televisivo conversou com a reportagem do caderno Ser e revelou alguns de seus segredos, numa breve entrevista. Os principais trechos o leitor confere a seguir.
Jornal da Cidade- O que é o jornalismo para você?
Glória Maria - Adoro jornalismo. É a minha razão de ser, de existir e de viver. A minha vida profissional foi eu quem escolhi. É a melhor vida do mundo. Acho que o jornalismo é a essência de minha vida.
JC - Como é estar cada dia num lugar diferente?
Glória Maria - Eu dou um tratamento adequado a todos os casos que cobri. É muito bom poder estar subindo uma montanha no Nepal, no Himalaia ou estar em Bauru. Estou acostumada com a correria e acho normal estar cada dia em um lugar diferente.
JC - O caso ‘Carlinhos’ te atraia por quê?
Glória Maria - O seqüestro do Carlinhos, em 1973, foi um dos primeiros casos que eu participei como jornalista. Eu acompanhei desde o primeiro dia, por isso estou aqui. Eu cobri esse caso como nenhum outro jornalista que está aqui. Eu participei desde o primeiro momento que esse seqüestro foi comunicado para a polícia. Eu fiz durante um ano, madrugadas e madrugadas de plantão, esperando esse menino ou o corpo dele aparecer e ninguém sabia de nada. Eu não estou aqui do nada. Eu não fui na pesquisa para saber dessa história, ela está na minha cabeça. Desculpa falar, mas antigüidade é posto.
JC - Conhecendo a história como nenhum jornalista, você aposta que esse menino esteja vivo?
Glória Maria - Nesse caso vale tudo, pode tudo, porque essa criança não apareceu nem viva nem morta. O sócio do pai foi preso na época. O pai esteve preso. Esse caso pode tudo. Tem uma infinidade de possibilidades. Eu nunca vi um caso parecido com esse. Eu acho que, pelo histórico dele, foi um dos primeiros casos que mobilizaram o Brasil. A cara daquele menino lindo no ar comovia todo mundo. O desespero da mãe, a dor da família, foi um caso que teve várias coisas diferentes. Tudo pode ser, se a polícia nesses 30 anos não conseguiu chegar à conclusão, eu, como jornalista, acho que toda possibilidade é uma possibilidade.
JC - Quando você conheceu os pais de Carlinhos?
Glória Maria - Fiz, durante muito tempo, matérias para o Jornal Nacional em cima desse caso. A primeira entrevista que a dona Maria Conceição Ramirez da Costa e o seu João deram foi para mim, uma matéria do Fantástico. Logo depois que eles souberam que o filho tinha sido seqüestrado, eles foram para o estúdio comigo para serem entrevistados ao vivo. Então, tenho muita história em torno desse caso.
JC - Você conheceu o ‘Carlinhos’?
Glória Maria - Eu não tenho a menor idéia de quem é o Carlinhos, porque eu não conheço ele. Eu só conheci o Carlinhos como todo mundo, por foto, a partir do momento do seqüestro. Eu conheci a história dele depois do seqüestro. Eu sempre falei com a dona Conceição porque ela tinha esperança de encontrar o filho. Ela ligava para mim porque eu fui a primeira jornalista dessa história. Ela sempre teve uma relação comigo.
JC - Você conhece o sofrimento dessa mulher?
Glória Maria - Eu vi o sofrimento dessa mãe, desde o primeiro segundo. Eu vi o desespero dessa mulher que perdeu o filho. Eu acompanhei desde a primeira lágrima que ela derramou. Me sinto um pouco dentro desse caso por causa disso. Eu acompanhei o sofrimento e a luta dela, o dia a dia para recuperar esse menino. O fato dela nunca ter perdido a esperança, de nunca ter perdido a fé, me ensina. Eu estou aqui por isso, não é um privilégio, é uma conquista. É mais um passo que ela está dando para encontrar o filho. Ela tem esperança desde o primeiro momento que tiraram o ‘Carlinhos’ da casa dela.
JC - Como jornalista você se preocupa só com os furos de reportagens?
Glória Maria - Eu sou de uma outra geração. Eu tenho uma história dentro do jornalismo porque sempre procurei fazer o meu trabalho e nunca me preocupei com o trabalho dos outros. Eu nunca pensei assim: fulano fez e eu não fiz; fulano tem e eu não tenho. Eu sempre procurei fazer, eu sempre corri atrás das coisas que eu queria fazer, nunca fiquei preocupada com o trabalho do outro. Acho que quando você perde energia com o outro você deixa de fazer algumas coisas.
JC - Na sua opinião, qual deveria ser a primeira preocupação do jornalista?
Glória Maria - Eu acho que a primeira preocupação que o jornalista tem que ter é com a ética, com a essência do jornalismo. Eu nunca quis ser juiz, eu nunca julguei dentro da minha profissão e nem vou julgar, por isso eu não escolhi o magistrado. Eu acho que ser jornalista não é um privilégio, é uma missão.
JC - A profissão de jornalista fascina milhares de jovens universitários que ingressam na faculdade. O que você acha disso?
Glória Maria - Hoje as pessoas enxergam o jornalismo como uma forma de você ter situações privilegiadas. Essa visão leva a pensar que o jornalismo perdeu muito por causa do glamour e do poder que essa profissão pode dar. Quem não vê o jornalismo como exercício de palavra, quem não vê o jornalismo como arte, vê como poder e aí é um perigo, porque ser poderoso todo mundo quer, até os ditadores.
JC - O jornalista é um julgador?
Glória Maria - O jornalista não é juiz de coisa nenhuma. O jornalista não é juiz nem da vida dele. Eu acho que a gente tem de ter consciência que nós somos simplesmente fiscais e não julgadores. A gente não pode se sentir acima da sociedade. Nem melhor do que ela, porque a gente erra, falha, faz muitas coisas que não deveria fazer. Se a gente não tem condições de julgar a nós mesmos, como vamos nos achar no direito de julgar o próximo?
JC - Depois de tanto tempo de profissão, você ainda diz que está aprendendo?
Glória Maria - Eu acho que o jornalista que está começando ou quem já está lá, tem de ter muito cuidado. Eu posso, como disse anteriormente, por antigüidade, dizer isso, porque eu estou há muito tempo e já mostrei um pouco do que posso fazer. Mesmo assim, eu sou uma pessoa que estou aprendendo. Eu não sei nada. Eu estou aqui em Bauru cobrindo esse caso, ‘Carlinhos’, como se fosse o primeiro da minha vida.
JC - Você se acha uma pessoa determinada?
Glória Maria - O que é meu ninguém tira. Eu corro atrás, não tenho medo. Eu não estou nem aí para o que as pessoas pensam. Eu estou aí para o que eu tenho dentro da minha alma. Eu não tenho nenhum medo de ser jornalista. Eu tenho a humildade de dizer que eu nunca sei nada, por isso corro atrás. Quando estou cobrindo um caso, eu sou uma leoa. É muito difícil tirar de mim o que eu acho que é meu.