Consta que tenha sido cristã a origem remota do Carnaval. Antes do início da Quaresma, período litúrgico marcado por austeridade, jejuns e mais intensa vida de oração, as comunidades realizavam suas festas em alegre e descontraído clima de confraternização, com danças folclóricas, muita música e fartos comes e bebes. Respeito entre as pessoas era o que não faltava.
O próprio nome, Carnaval, de origem latina (caro vale) quer significar: “carne, passe bem”, sem nenhuma conotação maldosa e pejorativa. Obviamente não é necessário muito esforço mental e tampouco aguçado espírito crítico para constatar que o inocente Carnaval da antigüidade cristã se degenerou por esse mundo afora e, particularmente, em nosso país que se tornou famoso como a terra do Carnaval.
Apesar de seus exageros e abusos, o Carnaval brasileiro não deixa de ser uma expressão de alegria, despertando a criatividade artística e musical. Nota-se sempre, em todo Carnaval, o surgimento de sugestivos carros alegóricos e de boas músicas com letras de cunho social criticando situações e acontecimentos da vida política nacional e internacional. Para quem não participa do Carnaval, é claro que ele indiretamente pode propiciar alguns proveitosos dias de descanso físico ou uma ocasião para um saudável retiro espiritual. Alguns analistas de comportamento humano chegam a afirmar que o Carnaval torna-se como que uma válvula de escape das múltiplas pressões e decepções que as pessoas vêm sofrendo na vida de família, na sociedade, no trabalho, na profissão, etc.
Devemos convir, todavia, que o Carnaval vem cada vez mais se endoidando, seja pelo uso de bebidas alcoólicas e de drogas, seja pelo seu permissivismo sexual. Em nossos tempos nada anda tão desvirtuado, banalizado e explorado como o sexo. Sexo na mídia, sobretudo na TV, nos vídeos, na Internet, nas revistas e também em tanta música com letras extravagantes, obscenas e de mau gosto. O sexo anda às soltas sobretudo nos dias de Carnaval. A confirmação disso são as campanhas públicas da “camisinha”, Ainda que esse contraceptivo possa parcialmente evitar muitos males, sobretudo a contaminação pelo vírus do HIV, essas campanhas não deixam de se constituir numa promoção do sexo irresponsável, meramente em busca do prazer.
É exigência ética da cidadania denunciar não somente a exploração do sexo no comércio da prostituição de adultos e menores, do turismo pornográfico e dos famigerados motéis, mas também denunciar o permissivismo sexual inerente ao Carnaval. A propósito, o carnavelesco Joãosinho Trinta está para apresentar dois carros alegóricos da Escola Grande Rio estimulando a pornografia: um carro abre-alas simulando relação sexual entre os personagens bíblicos Adão e Eva e outro com esculturas reproduzindo cenas de sexo segundo um manual indiano intitulado “Kama Sutra”. Graças a intervenção da Promotoria de Infância e Juventude de Duque de Caxias-RJ, a pedido da União dos Juristas Católicos, os citados carros deverão apresentar-se com um mínimo de decência e de respeito para com um público espectador e telespectador constituído de adultos e crianças.
Toda atividade humana, pessoal, familiar, comunitária e social, torna-se falha, também no seu aspecto lúdico, se não for permeada pelo bom senso moral e ético. Bom senso que o clássico Dicionário Aurélio define como “a aplicação perfeita da razão para julgar ou raciocinar em cada caso particular da vida.” Queira Deus surjam homens e mulheres carnavalescos de bom senso para tornar a festa do Carnaval mais respeitosa e condizente com a dignidade da pessoa. Neste feriado prolongado, seja esta nossa prece também prolongada. (O autor, Lourenço Maria Papin, é frei)