O governo Lula promete anunciar agora em março as primeiras diretrizes para estimular a retomada da produção industrial em setores selecionados pelos ministérios da área econômica. Na linguagem compatível com a era da informática, é preciso que as medidas venham devidamente “formatadas”, com os incentivos claramente nomeados, as fontes de recursos definidas e com os itens de desoneração tributária decididos (e não apenas rascunhados). Há providências que independem de autorização legislativa, como o alongamento paulatino dos prazos de recolhimento dos impostos, de comprovada eficácia para a recuperação financeira das empresas pois libera capital de giro a custo zero, aliviando a brutal carga de juros que hoje constrange a expansão da produção e os investimentos. Se isso for feito, com clareza e sem maiores condicionamentos, não tenho dúvida que os empresários vão reassumir rapidamente os riscos de ampliar a produção industrial e os investimentos. Construído o elo de confiança entre o empresariado nacional e o governo, a partida será dada. O investidor estrangeiro, ligado no ânimo dos nacionais, virá atrás.
A maioria de patrões e empregados na indústria está convencida que a prioridade do atual governo é a retomada do desenvolvimento econômico. As pessoas percebem que mudou a agenda, acreditam que Lula vai insistir “obstinadamente” em acelerar a economia porque ele também se convenceu que sem crescimento não criará os empregos que prometeu. O fato de a economia continuar trancada em 2003 e as barbeiragens com os juros neste início de 2004 causaram alguma decepção mas ainda não abalaram a confiança da maioria da população. Esta, aos poucos, foi tomando conhecimento da verdadeira dimensão do esforço que o governo Lula teve que realizar para neutralizar a armadilha construída nos oito anos de calamitosa administração tucana. Somente com o pagamento de juros das dívidas interna e externa contraídas durante os dois mandatos de FHC, o Brasil gastou R$ 145 bilhões em 2003, o equivalente a 10% do PIB aproximadamente. Para honrar estes compromissos e recuperar a credibilidade abalada pelas intrigas da campanha eleitoral, foi preciso aumentar a carga de restrição fiscal, cortar despesas e adiar investimentos.
O que produz uma grande amolação nos ex-governistas, hoje na oposição, é constatar que mesmo as pessoas mais simples compreenderam que as restrições do primeiro ano foram necessárias para administrar aquela herança maldita. Elas também pressentiram a mudança de rumos: os problemas do desenvolvimento econômico passaram a participar novamente do debate nacional. Os incentivos aos investimentos, o crescimento da produção industrial e o aumento da oferta de empregos, temas execrados nos oito anos de governança tucana, voltaram ao centro das preocupações da política econômica. O País reconstruiu as condições para permitir em 2004 a inflexão para uma taxa de crescimento mais robusta.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.