09 de julho de 2026
Auto Mercado

Colegas ajudam a tirar o 'coração do asfalto'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

A presença constante na estrada exige paciência e boa dose de concentração. Mas, para Osmar Caçador, a saudade que aperta o coração é o maior obstáculo. Nesta hora, os amigos da estrada ajudam uns aos outros.

Para distrair, ele tem no aparelho PX um aliado. “O rádio permite que a gente se comunique com outros companheiros que vivem como a gente. E ajuda na segurança. A gente troca informação sobre acidente, buraco, radar, polícia e ainda distraiímos”, enumera.

Caçador gosta de ouvir música na cabine, mas CD nem pensar. “Com essa buraqueira ninguém consegue ouvir CD, tem que ser fita”, critica. Entre os k-7s disponíveis, ele prefere o gênero sertanejo (campeão entre os caminhoneiros).

O sertanejo é tão popular nas cabines das carretas que muitas rádios contam com programas destinados somente ao gênero. “Ouço muito a rádio Zebu, de Uberaba (MG). Mas no Nordeste só toca forró. Em cada trecho, a gente sintoniza uma rádio”, conta.

O contato com a família é praticamente diário. Caçador diz que telefone toda noite, durante as paradas. A transportadora também é mantida informada sobre o andamento da viagem. “Gosto da estrada. Ficar longe da família é ruim, mas a gente leva. O difícil é quando tem algum problema de doença. Meu pai ficou doente agora e complicou. Estou longe e não posso ajudar”, lamenta.

A filha e a esposa já se acostumaram com o pai distante. “Elas vão levando. Não é fácil conviver por telefone, longe. Tenho saudade, como todo mundo. De vez em quando o astral cai um pouco e a gente procura um companheiro para ouvir uma piada, uma história qualquer, ouvir música”, acrescenta.

Osmar Caçador também conta que o percurso apertado não dá brechas para o turismo. “O máximo que dá para fazer é dar um mergulho no mar de vez em quando. Trabalho é trabalho”, finaliza.

Perigo na pista

Na semana passada, um dos colegas de Caçador na transportadora sofreu nas mãos de criminosos em Minas Gerais, na região de Salinas.

O colega levava sua carga para o Nordeste quando foi surpreendido por bandidos armados na subida de uma serra. Segundo Caçador, o trecho mais visado pelas quadrilhas é o situado entre Salinas e Montes Claros (MG).

As cargas mais procuradas para roubo têm sido de eletrodomésticos e equipamentos de informática. Tanto que as empresas costumam fazer o transporte com o uso de escolta.

“Obrigaram o colega a parar em um trecho da estrada e a beber um litro de pinga de uma só vez”, descreve. Depois, amarraram o caminhoneiro em uma árvore. “Ele ficou grogue com a cachaça, passou mal e desmaiou. Ficou só com a roupa do corpo. Levaram o caminhão”, amplia.

O nome do colega foi preservado. Ele conseguiu se livrar das amarras de madrugada, depois de uma pancada de chuva. Conseguiu uma carona até uma cidadezinha próxima e de lá contatou a empresa.

Com os caminhões segurados, o prejuízo ficou por conta do trauma. “Graças a Deus não atiraram e ele não reagiu”, finaliza Caçador.

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Estradas: dos pedágios aos buracos

O itinerário cumprido por Osmar Caçador atravessa algumas das principais rodovias brasileiras, de São Paulo, Minas, Bahia, Sergipe e outros Estados do Norte e Nordeste. A principal diferença, segundo ele, pode ser definida em três pontos: paisagem, pedágio e buracos.

O caminhoneiro considera as estradas paulistas as melhores. “No meu percurso é a única com pedágio, mas a pista é boa. De Minas pra cima não tem pedágio. Mas as estradas de Minas estão quase todas esburacadas”, cita.

Subindo em direção ao Norte, Caçador aponta que o asfalto está razoável na Bahia e bom em Sergipe. Em Alagoas, quase todos os trechos estão recapeados. “Em Pernambuco têm que tomar cuidado com ondulações na pista em vários pontos”, acrescenta.

Continuando a rota, Paraíba e Rio Grande do Norte não apresentam problemas nas rodovias. No Ceará, entretanto, existem vários trechos ruins. “Pedágio só tem em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Pra cima não tem. É só sertão, muito verde e o mar no litoral”, define.

O caminhoneiro lamenta que os buracos estão desgastando muito os veículos e aumentando o perigo na estrada. “Tem muito buraco. Nem tapar o governo tapa. Além de perder tempo, a viagem fica mais cara com os buracos com os estragos”, reclama.

Segundo ele, os pneus dianteiros rodam até 120 mil quilômetros. “Os da frente são sempre novos e os de trás ressolados. Os traseiros vão até 90 mil quilômetros no máximo”, conta.

Seu Volks já rodou 620 mil quilômetros desde 1999, quando foi adquirido pela transportadora. O motor “bateu biela” com 515 mil kms. “Deu problema em Aracaju (SE). Em quatro anos, só tive problema duas vezes”, recorda.