08 de julho de 2026
Articulistas

Sermão do Carnaval


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O lugar comum é antigo: o Brasil começa depois do Carnaval. Os dionisíacos acham que não: o Brasil termina depois do Carnaval. Joãosinho Trinta acha que o Brasil verdadeiro é o luxurioso, o sensual, o espontâneo, o erótico, o epidérmico, o sensitivo, o risonho, o calorento, o mestiço... Por isso perdeu o emprego. Foi punido porque escolheu um tema muito ousado para apresentar na avenida à sociedade brasileira atual - o Kama Sutra, publicado no século 4. O moderno são aqueles peitos siliconados, nada sensuais, que mais parecem bexigas de aniversário.

O Carnaval continua sendo uma metáfora do Brasil. Pobreza e riqueza, luxo e miséria, lantejoulas e ouropéis. Tudo é espetáculo. Termina o período de veraneio, encerram-se as férias escolares, conclui-se o recesso legislativo e até as horas voltam a ser as do sol, sem as adaptações determinadas pelas razões do horário de verão. Em nosso País seguimos o calendário romano que também começava em março. O presidente Lula inicia uma “agenda positiva” e, antes de viajar novamente, disse que vai dar início “ao maior programa social do mundo”. No mesmo dia, os jornais anunciam retração da economia, recuo do PIB e aumento do desemprego.

A cada dia sem que o governo anuncie alguma medida concreta no sentido de investigar os reais efeitos do escândalo da propina, os brasileiros que já despiram a fantasia, vão perdendo a paciência. Dizem que o Waldomiro Diniz, pivô do caso, estagiou em Bauru. Pelo jeito não aprendeu nada. Onde se viu pedir só 1% de gorjeta quando o usual é 30%. É avacalhar com o mercado...

Depois do lançamento da Campanha da Fraternidade o ministro Patrus Ananias, num raro exercício de autocrítica por parte de um integrante do Partido dos Trabalhadores, admitiu que “no passado, quando não era governo, o PT talvez tenha exagerado nas denúncias que fazia”. Errado. Foi graças a esta postura, que se esperava tivesse continuidade na condição de governo, que o PT venceu as eleições presidenciais (...)

O poderoso ministro José Dirceu reclamou da “herança maldita” que proveio do governo tucano. Lula chegou a chamar seus antecessores de covardes, por não terem feito o dever de casa. É hora de provar que não eram apenas bravatas comuns entre postulantes da fama, aquela fama que Luiz Vaz de Camões cantou na fala do velho do Restelo: “ Ó glória de mandar, ó vã cobiça/ desta vaidade a que chamamos fama!”

Expulsaram a Heloísa Helena e o Babá por muito menos do que isso. Estamos inaugurando a transição quaresmal. Mas em ano eleitoral não se espere dela inspiração para recolhimentos espirituais, pedidos de perdão ou para atos penitenciais. Agora, vai valer o jogo bruto, um eterno enredo de nossas folias políticas. E nem se espere consolo no “ Sermão do Carnaval” do padre Vieira: “Não é miserável a república onde há delitos, senão onde falta o castigo deles”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)