A contaminação por mercúrio é considerada um problema grave de saúde. Mas uma pesquisa realizada na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru mostra que, além de atingir órgãos vitais, o metal também altera as funções neurológicas dos seres vivos. Isso inclui perda do medo, diminuição da ansiedade e redução da capacidade de aprender.
De acordo com o psicólogo Amauri Gouveia Júnior, que coordena os estudos em Bauru, tais comportamentos modificam a relação entre presa e predador. Doutor em neurociências, ele afirma que, a médio e longo prazos, isso pode comprometer seriamente o equilíbrio ecológico e a própria evolução das espécies.
A pesquisa avalia o nível de ansiedade de peixes e ratos expostos ao metilmercúrio. Para isso, são usados três parâmetros: situações de medo natural (instintivo), situações de medo adquirido após experiências ruins e situações de aprendizado.
“Observamos que o medo tende a diminuir; o animal aparenta mais coragem; o nível de ansiedade diminui; e ele precisa de mais tentativas para aprender”, comenta o psicólogo, que é responsável pelo Laboratório de Psicobiologia e psicopatologia Experimental da Unesp de Bauru.
Ele explica que a ação do mercúrio no sistema nervoso central deixa as cobaias mais desinibidas, corajosas e excitadas. “A presa se expõe mais, o predador tem mais falhas na hora da caça e há uma diminuição na reprodução destas espécies, porque os animais perdem o ‘time’ (tempo) do ritual de acasalamento”, aponta.
Ele cita o exemplo da traíra. Quando encontra uma presa, ela se aproxima bem devagar, adquire uma coloração pálida e rodeia a presa por um bom tempo. De repente, num golpe só, ela abocanha sua vítima e volta para a toca.
“A traíra contaminada se aproxima mais rápido da presa. Seu ataque é mais abrupto e isso, somado com as alterações visuais causadas pelo mercúrio, faz com que a presa escape mais facilmente. Se a traíra não se alimenta, ela morre e começam a sobrar presas. Há um desarranjo na relação ecológica”, descreve.
O pesquisador salienta que os primeiros a sofrer as conseqüências desse desarranjo são os peixes que estão no topo da cadeia alimentar - os maiores e que precisam caçar em maior quantidade.
Segundo ele, são justamente esses peixes maiores os mais utilizados na alimentação humana. Portanto, uma contaminação em massa representaria um forte desequilíbrio ecológico.
Onde está
O mercúrio é um produto da natureza que pode ser modificado e aplicado em inúmeras atividades humanas. Mas ao ser ingerido, inalado ou absorvido pela pele em quantidades exageradas, pode intoxicar o organismo e causar problemas sérios de saúde. Doses elevadas ou exposição contínua por longo prazo podem ser, inclusive, fatais.
A cor prateada do metal líquido fascina o ser humano há muitos e muitos anos. Seus efeitos tóxicos só foram percebidos no primeiro século depois de Cristo. Mesmo assim, o mercúrio e seus derivados foram e ainda são largamente utilizados pelo homem.
Todos os seres vivos são vulneráveis à contaminação, com o agravante de que o efeito do metal no organismo aumenta dez vezes a cada salto na cadeia alimentar.
“É o que chamamos biomagnificação. Suponhamos um marisco que tem 10 microgramas de mercúrio no organismo. Ao comer esse marisco, seu predador terá 100 microgramas. O predador desse terá 1.000 microgramas, potencializando mais ou menos dez vezes até chegar ao homem”, alerta.
Segundo Gouveia Jr., a contaminação pela maioria dos derivados de mercúrio não pode ser revertida, pois o metal fica alojado no organismo, agindo permanentemente. Por isso, a tendência dos sintomas é progredir.
“A prevenção depende de uma atitude global. Precisamos pressionar as indústrias que utilizam o mercúrio a reciclar seus produtos. Paralelamente, cada um de nós precisa manter um estilo de vida adequado, não jogar produtos que contenham mercúrio no lixo comum, para diminuir a poluição ambiental”, orienta.