O supervisor de obras Carlos Alberto de Souza ainda não sabe se é Carlinhos, o menino seqüestrado no Rio de Janeiro em 1973. O resultado do exame de DNA que pode elucidar um dos casos de desaparecimento mais famosos do País pode sair a qualquer momento, mas está atrasado em dez dias. A previsão do Instituto Vital Brasil era divulgar a conclusão dos testes realizados por quatro laboratórios antes do final do mês passado.
A demora tem provocado ansiedade no supervisor de obras, que será o primeiro a receber o resultado, informa o advogado dele, Paulo de Freitas. Em nome de Carlos Alberto de Souza, o advogado acordou com o presidente do Instituto Vital Brasil, Oscar Berro, que as partes envolvidas serão comunicadas antes que os órgãos oficiais e a imprensa.
Assim, a mãe de Carlinhos, Maria Conceição Ramires da Costa, também receberá a informação de maneira privilegiada. Não souberam informar se o resultado será divulgado para ambos conjuntamente. Até ontem à noite, o advogado Freitas desconhecia qualquer viagem de Carlos Alberto de Souza para o Rio de Janeiro nos próximos dias.
Mas independentemente de como será a notificação, ela esclarecerá um caso recheado de mistérios, que começou a ser investigado há um ano pelo Programa SOS Crianças Desaparecidas. Por meio de uma carta, o programa tomou conhecimento de Carlos Alberto de Souza, que mora em Bauru.
O órgão levantou alguns indícios - como uma cicatriz no joelho, a cavidade do lado esquerdo do rosto e uma mancha do lado direito - que apontam o supervisor de obras como o menino Carlinhos. A falta de memória de Souza em relação à sua infância também foi apontada como evidência para justificar as suspeitas.
Porém, no mesmo dia em que foi feita a coleta de amostras de sangue e mucosa da boca do supervisor de obras, Maria Izabel de Souza veio a público garantir que ela é a mãe biológica de Carlos Alberto. Disse que ficou grávida dele em Bauru quando tinha 15 anos e alegou estar magoada com o fato do filho acreditar na hipótese de ser o menino desaparecido há mais de 30 anos. Uma certidão de nascimento e o registro escolar de Souza confirmam seu depoimento.
O intrigante é que Maria Izabel morou com a irmã no Rio de Janeiro no final da década de 60 e início da década de 70, conforme o JC publicou. Coincidências como esta sustentam a fé de Maria Conceição Ramires de encontrar o filho.
Ela conheceu Carlos Alberto de Souza no dia 13 de fevereiro. Na oportunidade, eles se emocionaram e ele disse que ganhou uma mãe, independentemente do resultado do DNA. Carlos Alberto foi criado pelos avós e tem um relacionamento conturbado com Maria Izabel.
____________________
Seqüestro
No dia 2 de agosto de 1973, Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, então com 10 anos de idade, estava na residência em que a família morava, na rua Alice, Zona Sul do Rio de Janeiro, quando um homem mascarado e armado invadiu a casa e o seqüestrou. A mãe e quatro dos seus seis irmãos assistiram à cena.
Antes de fugir, o seqüestrador deixou um bilhete exigindo 100 mil cruzeiros de resgate, o equivalente a aproximadamente R$ 50 mil. A polícia montou uma operação para prender o bandido no local combinado para a entrega do dinheiro, mas ninguém apareceu para buscá-lo.
Desde então, o desaparecimento de Carlinhos se transformou em um mistério sem solução. Três pessoas chegaram a ser presas e apresentadas como responsáveis pelo seqüestro, mas a própria polícia assumiu dias depois que se tratava de um engano.
O pai de Carlinhos, João Mello da Costa, também chegou a ser apontado como suspeito e acabou preso, mas foi liberado por falta de provas. Ele se separou da esposa em 1976.
Em março do ano seguinte, uma irmã de Carlinhos apontou Sílvio Azevedo Pereira, funcionário do laboratório do pai, como autor do crime. Condenado a 13 anos de prisão, ele recorreu e foi absolvido.