08 de julho de 2026
Geral

Saúde não consegue conter leishmaniose

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

“Sinceramente, acho que tudo o que está sendo feito para tentar conter a proliferação da leishmaniose em Bauru não vai gerar resultados eficazes. Essa doença é de difícil controle.” A afirmação é do chefe do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) - órgão ligado ao Departamento de Saúde Coletiva do município -, José Rodrigues Gonçalves Neto, que lamenta a estrutura precária que tem para trabalhar e critica a falta de “envolvimento” do Estado no caso.

“Nós só estamos atacando uma das vítimas da doença, que é o cão - tão vítima quanto o homem. Aliás, o homem é o grande culpado nessa história, porque desmatando tudo e matando animais silvestres há anos, a leishmaniose, que só tinha ocorrência em áreas rurais, veio para a área urbana. Agora, o que precisamos é de controle biológico para conter o transmissor da doença, coisa que não está sendo feita por ninguém”, desabafa.

A leishmaniose é transmitida a cães e humanos através da picada do mosquito palha infectado, que se prolifera em locais com material em decomposição, como lixo. A doença, que tem tratamento em humanos, pode levar à morte porque debilita o sistema imunológico do paciente. Em cães não tem cura, e por isso os animais doentes têm que ser sacrificados.

O chefe do CCZ diz que está trabalhando em Bauru com uma equipe de dez pessoas, sendo que destas, duas ficam responsáveis apenas por recolher os cães que são levados para sacrifício.

“Eu precisaria, no mínimo, do dobro do número de funcionários para fazer um trabalho mais ágil. Isso sem contar que as pessoas que estão trabalhando comigo foram desviadas de outros setores, como os agentes do controle da dengue. A todo momento que surge um novo caso de leishmaniose canina ou humana (prioridade), temos que parar o que estamos fazendo num determinado bairro para fazer as investigações ao redor desta ‘nova’ região. Isso nos atrasa demais”, diz.

Somado a isso, outro problema que também se reflete no insuficiente trabalho de controle da doença - e que afeta diretamente a população - é a falta de estrutura física do município. Mesmo se a equipe do CCZ fosse maior, até hoje Bauru ainda não possui o veículo adaptado (popularmente conhecido como carrocinha) para recolher os cães errantes.

“O problema dos cães errantes é grave. Quando fazemos a varredura no raio de 200 metros do local de confirmação de um cachorro infectado e colhemos amostras de sangue de todos os animais, se um deles tiver o diagnóstico positivo da doença não mais será localizado por nós. Para isso, precisaríamos da estrutura física (canil) para colocá-los em isolamento”, aponta Gonçalves Neto.

As ações desenvolvidas pelo CCZ seguem o último informe técnico (de setembro de 2003) da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Segundo Gonçalves Neto, em dezembro de 2003 foi feito o pedido à prefeitura para a compra do veículo adaptado, que custa em torno de R$ 95 mil. Mas desde então, o chefe do CCZ não teria obtido nenhum retorno sobre o assunto.

No Centro de Controle de Zoonoses está sendo construído um canil com capacidade para 70 animais, para o qual parte dos recursos da obra veio da União. Sua finalidade é a de um canil coletivo (e não de isolamento), mas tem sido usado para o sacrifício de animais doentes em função da falta de estrutura do município.

“Temos o outro canil, que está sendo utilizado pela Uipa (União Internacional Protetora de Animais). A Saúde (secretaria) já solicitou várias vezes a desocupação do local, o que ainda não ocorreu nem se sabe quando vai ocorrer. Ou seja, mesmo que o veículo para recolhimento de animais chegue logo, continuaremos com falta de local para colocar os cães errantes e doentes”, destaca Gonçalves Neto.

O secretário municipal de Saúde, Hanna Saab, foi procurado pela reportagem para falar sobre este e outros assuntos relacionados ao controle da leishmaniose, mas até o fechamento desta edição não retornou aos diversos recados deixados em seu consultório médico. O prefeito Nilson Costa (PTB) também foi procurado, sem sucesso.

Todo esse problema envolvendo a dificuldade de avaliar os cães errantes traz à tona antigas discussões sobre a posse responsável de animais. A veterinária e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Araçatuba, Maria Cecília Rui Luvizoto lembra que a irresponsabilidade de muitos proprietários de cachorros - que acabam abandonando os animais na rua - também contribui para o agravamento de casos como o da leishmaniose.

“Araçatuba também viveu momentos críticos com essa doença, porque tinha uma superpopulação de cães, muitos errantes. Milhares de animais foram sacrificados na cidade. A lentidão das ações de controle da doença (diz a professora quando questionada sobre o caso de Bauru) é própria do serviço público. O que precisa é desenvolver ações educativas junto à população, porque todos devem estar cientes do que fazer e todos precisam ajudar”, afirma.

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Sem intervenção

Conforme matéria veiculada na edição de anteontem do JC, o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Luiz Eduardo Sciuli, disse que está dando prioridade às investigações sobre os casos de leishmaniose em Bauru. Porém, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas pelo município para atuar de forma mais abrangente no combate à proliferação da doença, o promotor não acredita ser necessária uma intervenção do Ministério Público (MP) neste momento.

“Se houver omissão por parte do município, certamente o Ministério Público tomará atitudes. Mas por enquanto, me parece que a situação está sendo controlada, dentro das possibilidades da estrutura precária que o município tem nessa área. O chefe do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) foi ouvido por mim e não vejo necessidade de intervenção neste momento”, disse à reportagem.

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