09 de julho de 2026
Articulistas

A muvuca petista


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O inferno astral do PT, ao contrário do Carnaval, não foi interrompido na Quarta-feira de Cinzas, com o início da Quaresma. As revelações que se sucedem continuam abastecendo de combustível a fogueira onde ardem as principais bandeiras das campanhas petistas, a honestidade e a ética. Esta semana mais um assessor do ainda poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu, foi afastado. É Marcelo Sereno, carioca, que dividia com Waldomiro Diniz as responsabilidades da assessoria de Dirceu e teve seu nome envolvido no lotérico caso.

As declarações dos líderes do PT provocaram, ao longo do reinado de Momo, mais confusão que esclarecimento e, pelo visto, mesmo com a ajuda do trio Sarney, ACM e Calheiros, o drama petista segue ganhando fôlego a cada dia como demonstra o depoimento, a Polícia Federal, do cidadão Carlinhos Cachoeira, conhecido nos Estados Unidos como Charles Waterfalls. Por sinal, Cachoeira desafia o governo Lula com declarações abusadas, como aquela sobre a medida provisória que proíbe o funcionamento dos bingos não atingir seus negócios, “ao contrário até ajuda”. Declara, abertamente, que tratou com o Waldomiro, já assessor de Dirceu, da prorrogação do contrato entre a Caixa Econômica Federal e a GTech do Brasil para que esta continuasse fornecendo os programas das loterias exploradas pela estatal. O montante dos negócios entre a CEF e a filial da gigante americana de informática é da ordem de R$ 130 milhões. Waldomiro compareceu, nesta terça-feira, à polícia federal e afirmou que só falará em juízo, assim, tem tempo de rezar para Santo Expedito, o das causas impossíveis, para que surja um fato que o destrone da ribalta.

Os fatos que poderiam alterar o baixo astral petista poderiam vir da área econômica, mas os números divulgados pelo IBGE na semana passada mostrando que o PIB de 2003 encolheu 0,2%, que a renda dos trabalhadores caiu e que o desemprego subiu, indicam a necessidade de buscar-se algo mais para distrair os incautos. A balança comercial que ao final do primeiro bimestre deste ano já supera os US$ 3,5 bilhões de saldo poderia ajudar nesse mister, mas nem de longe faz frente ao quadro negativo vivido pelo governo que, ainda, tem contra si a interrupção na queda dos juros. A alegria dos bancos, ajuda menos ainda, pois os recentes lucros, como o do Itaú e o do Bradesco que juntos abocanharam mais de R$ 6 bilhões em 2003, mostra a verdadeira face da política econômica do governo que seria dos trabalhadores.

Ainda que Lula e seus aliados consigam evitar a CPI, e é o mais provável, o estrago na imagem do governo e do PT já estará feito. A muvuca petista para explicar o inexplicável e a ação decisiva (e clara) do governo contra a apuração das responsabilidades condenará o PT a atuar na defensiva nos embates políticos futuros.

O entusiasmo observado nos vários setores do País, no início deste ano, se desfez como num passe de mágica. Os juros não caíram como era esperado e a desculpa foi o controle da inflação. Todos sabem que a inflação que aí está, não é de demanda, não é produto do consumo, mas, sim, dos preços e tarifas controladas pelo poder público, como telefone, luz, impostos, etc. Assim, as águas de março fecharão o verão sem que os juros caiam, a renda do trabalhador aumente e o desemprego diminua. Talvez o governo Lula tenha perdido todo o primeiro semestre e o que é pior, talvez tenha perdido o seu melhor articulador político, o ministro José Dirceu. É esperar para ver.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, foi deputado federal, secretário da Agricultura e prefeito de Bauru.