Pelé fora de campo é outra coisa. Os mitos são excepcionais em um só mister. Do contrário, seriam Deus. As incursões do jogador, no mundo empresarial, como sócio de Zito ou de Pepe Gordo deram em ressonantes desastres. Isso para não falar nos casos mais recentes que estão nos tribunais, como a questão do dinheiro da Unesco para um campeonato infantil, não realizado. Até para reconhecer a filha deu trabalho. Qualquer jogador de várzea faria melhores previsões do que o Pelé sobre jogos importantes ou sobre finalistas de Copa do Mundo. Fora do gramado o homem pisa na bola.
Talvez por isso o próprio jogador trace delimitações entre o Edison (foi batizado com “ï” no nome) e o Pelé, como observa o jornalista José Castello (Pelé: os dez corações do Rei, Ediouro). Edison Arantes do Nascimento só fala de Pelé na terceira pessoa. “Até hoje me pergunto como o Pelé surgiu. Me pergunto de onde ele veio e por que eu, o Edison, fui escolhido para encarná-lo”. É como se tivesse dupla personalidade. Algo como o dr. Jekyll e mister Hide, do escritor inglês Robert Louis Stevenson, que relata a vida de um sujeito que é ao mesmo tempo, médico e monstro.
Diante desses fatos concluo que o autor da lista de indicados para o prêmio Fifa Hundred só pode ter sido o Edison. Pelé jamais teria se esquecido de Nilton Santos, o primeiro defensor da história do futebol a apoiar o ataque e a fazer gols. Cheguei a desconfiar do Dico em matéria de autoria dessa lista que o Gerson execrou. Logo tirei essa idéia da cabeça porque, se tivesse sido o Dico, o Aniel Chaves fatalmente teria sido incluído. Pode até ser arte do Gasolina, apelido que o próprio Edison jamais gostou, conforme conta o Luiz Carlos Cordeiro em seu livro De Edson a Pelé. Mas do Pelé, tenho certeza de que essa lista não é. Como justificar a ausência de Tostão, Rivelino (incluído mais tarde) e Coutinho? Acho que foi Armando Nogueira que escreveu: as tabelinhas Pelé/Coutinho são a maior prova da existência de Deus. Nenhum mortal seria capaz de inventar essa trama diabólica para fazer gols.
O melhor time de todos os tempos foi o selecionado húngaro de 1954. Eliminou o Brasil e marcou 27 gols na Copa. A maior goleada a Hungria aplicou em El Salvador na Espanha, em 1982 - 10 a 1. Esse time só tem um representante na lista do Edison: Puskas. Bem, tudo começou errado porque a Fifa não deveria desprezar os grandes jogadores já falecidos. Pelé foi convidado para escolher os 120 maiores jogadores da história ainda vivos. Simplesmente inaceitável que se faça qualquer tipo de eleição dos melhores sem constar da lista fenômenos como Bobby Moore, Kocsis, Czibor, Labruna, Leônidas, Zizinho, Garrincha, Didi e tantos outros. Quer dizer que o morto deve ser esquecido para sempre? Pelo contrário, a memória dos mortos deveria ser reverenciada pela Fifa. O Edison apresentou 121 nomes, incluindo o dele próprio. Depois acrescentou Nilton Santos, Rivelino, o alemão Uwe Seller e Marco van Basten, holandês. Para fazer média, entraram no rol as americanas Mia Hamm e Michele Akers, as únicas mulheres. O Nakata eu não sei em que categoria foi incluído.
Para Pelé (digo, Edison) Itália e França tiveram melhores jogadores do que o pentacampeão mundial Brasil. Dentre os brasileiros, além dele, votou em Djalma Santos, Carlos Alberto, Nilton Santos, Rivelino, Cafu, Júnior, Roberto Carlos, Falcão, Rivaldo, Sócrates, Zico, Romário, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Mas lista é lista. Qualquer que fosse ela, sempre iria contrariar opiniões. Se não quisesse correr risco, Pelé deveria ter rejeitado a incumbência. Agora, agüenta. Puskas foi muito inteligente quando perguntado sobre o melhor jogador do mundo. “O melhor foi Di Stefano, com quem joguei. Pelé pertence a outro mundo”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)