11 de julho de 2026
Saúde

Insuficiência cardíaca afeta 1% no mundo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 8 min

A insuficiência cardíaca é um distúrbio caracterizado pela dificuldade do coração em bombear o sangue de seu interior para o resto do organismo. Por alguma razão, o músculo cardíaco enfraquece e perde progressivamente sua força de contração. Isso diminui a circulação do sangue - responsável pelo transporte de oxigênio e nutrientes a todos os órgãos e tecidos do organismo. A doença afeta cerca de 1% da população mundial e pode matar.

De acordo com o Ministério da Saúde, só o Sistema Único de Saúde (SUS) registra aproximadamente 400 mil casos novos por ano. É a primeira causa de internações por doenças cardiovasculares, a um custo anual de US$ 155 milhões, segundo o Sistema de Informações Hospitalares (SIH).

Membro da equipe de transplantes do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, o cirurgião vascular Marcello Laniza Felicio explica que a insuficiência cardíaca pode ser causada por uma infinidade de doenças: defeitos anatômicos de nascença, infecções por vírus, bactérias ou parasitas, arritmias de diversas origens, hipertensão arterial e muitas outras.

Em visita a um paciente transplantado de Bauru, ele afirma que, por ser progressiva, a doença quase sempre evolui para o transplante de coração e nem sempre se consegue um doador a tempo. Confira trechos da entrevista.

Jornal da Cidade: A insuficiência cardíaca é uma doença ou um sintoma?

Marcello Laniza Felicio: Ela é uma conseqüência. Várias doenças do coração podem evoluir para esse estado de perda da eficiência de bombeamento. Ocorre uma incapacidade do coração de adequar o fluxo de sangue ejetado por ele às necessidades metabólicas e fisiológicas do organismo, trazendo sintomas e descompensações.

JC: Que tipo de sintomas?

Felicio: Dificuldade respiratória, que aumenta quando se faz esforços físicos; edema pulmonar, que muitas vezes exige apoio respiratório artificial; queda da pressão arterial, o que facilita mal-estares e desmaios, além de um cansaço constante; insuficiência renal, pois os rins são muito sensíveis a essa falta de pressão; edema generalizado resultante da execessiva retenção de líquidos, entre outros.

JC: E existe tratamento?

Felicio: A correção precoce dos problemas coronarianos e valvares evita complicações tardias e, na maioria das vezes, estabiliza ou mesmo evita a insuficiência cardíaca. Outra opção é o tratamento farmacológico. Você consegue, em muitos casos, diminuir a velocidade de progressão da doença e o controle dos sintomas do paciente, podendo até, em muitos casos, postergar o transplante. Mas os remédios não revertem a insuficiência e, na imensa maioria dos casos, só o transplante.

JC: Nesse sentido, temos uma boa notícia. A Secretaria de Estado da Saúde divulgou, recentemente, que São Paulo bateu o recorde de doações e transplantes em janeiro deste ano, em comparação com o mesmo período de anos anteriores. Só de coração foram realizados 15 transplantes em janeiro. Como a classe médica recebeu essa notícia?

Felicio: Esse aumento no número de doações é resultado da divulgação dos transplantes, da conscientização das pessoas sobre a necessidade, a importância da doação de órgãos. Várias campanhas têm sido feitas, não só na televisão, nas novelas, mas também em escolas e outros lugares.

JC: Mas o País ainda tem problemas em fazer a captação dos órgãos, não é? Uma família de Bauru, recentemente, tentou doar os órgãos de um rapaz com morte cerebral, mas a equipe de captação não chegou a tempo e ele acabou sofrendo a morte física.

Felicio: Eu entendo essa dificuldade, que acaba deixando as famílias revoltadas. Essa viabilização da captação tem melhorado dia após dia, mas quando ocorre o diagnóstico da morte encefálica, o doador precisa ser submetido a vários exames que confirmem a viabilidade do órgão a ser doado e isso já leva algum tempo. Depois de feito isso, as informações são cruzadas com os receptores que aguardam na fila.

Às vezes, ocorre uma dificuldade de encontrar o receptor. Ou porque o doador não é compatível (com os primeiros da lista), ou porque o receptor compatível está instável, com uma infecção ou descompensação que impossibilite a cirurgia, aí você tem que checar tudo de novo com o próximo da fila. Tudo isso demora.

JC: Na verdade, não se faz a captação dos órgãos sem antes encontrar o melhor receptor, certo?

Felicio: Exatamente. Porque a partir do momento em que o órgão é retirado, existe um tempo máximo que se pode esperar para o implante. E o coração é o órgão que sofre mais com o tempo de isquemia (ausência de circulação sangüínea e oxigenação). É preconizado que, após a retirada, o coração deve ser implantado em até quatro horas.

Mas quanto antes o implante for feito, melhor vai ser o resultado do transplante. Então, precisa estar tudo pronto: o receptor tem que ter feito os exames, tem que estar internado, a equipe de cirurgia preparada para o implante, a equipe de captação preparada para que o órgão seja encaminhado ao receptor o mais rápido possível (...)

Os esforços têm sido feitos na procura de se organizar cada vez mais o serviço de captação para diminuir o tempo de espera para a retirada do órgão, mas há critérios a se seguir. Enquanto isso, o doador precisa ser mantido vivo por aparelhos para que seus órgãos não apresentem disfunções. Em alguns casos, a gravidade do doador é tamanha que não se consegue mantê-lo pelo tempo suficiente.

JC: O País também está passando por denúncias de favorecimento na fila dos transplantes. Como o senhor vê tudo isso?

Felicio: Muito é só especulação. Existe uma central de captação de órgãos e dentro dela uma organização de procura. A demanda de transplante é atendida conforme as características do doador e do próprio receptor. O que confunde as pessoas é que muitos pacientes são passados na frente, mas existe todo um protocolo para isso.

JC: Como assim?

Felicio: Muitos pacientes que estão esperando o órgão podem esperar em suas casas ou internados na enfermaria, mas controlados com medicamentos e sem um risco imediato de morte. Então, aparece um paciente de urgência, como o que aconteceu com o ator Norton Nascimento.

Ele estava em estado bastante grave, começando a apresentar disfunção de outros órgãos, sendo mantido sob altas doses de drogas e sob aparelhos. Por tudo isso, ele foi priorizado e era o único paciente priorizado no hospital naquele dia. Mas isso tudo tem que ser justificado pela equipe, comprovado por exames, documentado, protocolado e aceito pela central.

JC: E mesmo assim ele tem que contar com a sorte de haver a doação de um órgão compatível com ele.

Felicio: Exatamente. Muitas vezes o órgão que aparece não é compatível e ele passa para outro receptor da fila.

JC: Existe algum meio de se prevenir a insuficiência cardíaca?

Felicio: O risco de se ter insuficiência cardíaca é proporcional a uma somatória de fatores - aqueles conhecidos riscos às doenças cardiovasculares: hipertensão arterial, o controle do diabetes e do colesterol, tabagismo, obesidade, sedentarismo, história familiar. Uma vida saudável e equilibrada é a melhor maneira de se prevenir a doença.

____________________

Bauruense: 37 dias de espera

Uma miocardiopatia dilatada (aumento do coração) diagnosticada em 1999 levou o dentista bauruense Heraldo Riel ao Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo em setembro do ano passado. Depois de quatro anos tentando controlar a disfunção com medicamentos e respirador artificial, Riehl foi internado às pressas já inconsciente. Aos 34 anos, ele foi priorizado na lista de espera e recebeu um coração novo.

“Cheguei muito mal lá. Não conseguia caminhar, nem me alimentar, tomar banho, nada. Na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), os médicos me reanimaram, compensaram com remédios e aparelhos, fizeram alguns exames e fui inscrito na lista de espera”, conta.

“Tem todo um ‘vestibular’ antes dessa inscrição”, comenta a esposa dele, Ana Paola Cintra Ricciardelli. Segundo o cirurgião cardiovascular Marcello Laniza Felicio, a cirurgia pode ser contra-indicada se as chances de sobrevida do doente após o transplante for muito pequena. “O que ocorre quando já há falência em outros órgãos, por exemplo”, cita.

Com seu organismo parcialmente estabilizado, Riehl ainda teve que aguardar 37 dias. Nesse período, o hospital realizou oito transplantes. “Apareceram seis corações para o meu caso, todos eles foram contra-indicados por falta de compatibilidade. O sétimo coração encaixou e fui para cirurgia”, lembra.

Um mês depois ele estava de volta em casa. Questionado sobre sua vida hoje, seu rosto se ilumina com um sorriso e um brilho intenso nos olhos. “Mudou tudo. Eu não tinha chance de vida nenhuma e hoje eu tenho outra. Estou caminhando, trabalhando, estou com minha família de novo, nasci outra vez. A sensação de bem-estar é tão grande que eu não me lembro de ter me sentido assim mesmo antes de ficar doente”, salienta.

Segundo ele, os resultados de seus exames hoje são muito melhores que os que obtinha antes de diagnosticar a doença. “Depois do transplante, quando eu comecei a caminhar, eu andava o dia inteiro com o dedo no pulso, só para sentir o coração de outra pessoa batendo dentro do meu peito e me fazendo sentir tão bem”, encerra.

• Serviço

O dentista Heraldo Riehl realiza palestras voluntariamente sobre a importância da doação de órgãos e transplantes. Interessados podem entrar em contato pelo telefone (14) 3234-5378.