09 de julho de 2026
JC Criança

Sacizada enfrenta halloween

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

“Você pode nunca ter pensado no assunto, mas tem gente grande que está mobilizando o País para instituir o Dia do Saci, na mesma data em que se comemora o Dia das Bruxas (data festiva difundida pela cultura americana), em 31 de outubro.

A Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci) foi formada em São Luiz do Paraitinga no ano passado e já propõe uma carta com o maior número de adesões para encaminhar ao ministro da Cultura, Gilberto Gil.

“Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos”, é o que alega parte do texto do abaixo-assinado (disponível no site da Sosaci, www.sosaci.org). A principal questão é valorizar o folclore brasileiro, que possui riquíssimas lendas e personagens, como o boto, a iara, o boitatá, a mula-sem-cabeça e, é claro, o saci. O que acontece com a inserção de tantas outras manifestações culturais (não só a inclusão do halloween em festividades escolares) é que, às vezes, a própria cultura brasileira fica deixada de lado.

Mas o saci percebeu tudo o que estava acontecendo e começou a mobilizar a sacizada. Agora, muitos observadores e caçadores de sacis estão se reunindo para divulgar as lendas brasileiras. “A tentativa é que as crianças voltem a imaginar o saci”, diz o secretário de Cultura de Botucatu, Wilson Nakamoto, em informações da Sosaci.

Botucatu, a 90 quilômetros de Bauru, é a cidade que sedia a Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS - www.ancsaci.com.br), presidida pelo engenheiro José Oswaldo Guimarães, onde ocorre anualmente o Festival Nacional do Saci, no mês de agosto. Vários associados mantêm criações nas matas e fazendas da região e dão continuidade à preservação da cultura popular brasileira.

____________________

Criadores divulgam personagem

O Rodrigo Guimarães Wagner tem 11 anos e é membro da Associação Nacional de Criadores de Saci. Ele conta que começou sua criação no sítio, em Porangaba. “Eu estava passeando com o meu cachorro, naquela época eu tinha uns 5 anos, e ele começou a latir. Aí, fui correndo e vi um menininho, com quase um metro, e eu falava: Quem é você?”, lembra. “Só que mesmo com uma perna só o saci corre muito, ele é mais rápido, porque, na verdade, ele não perdeu a perna, as duas pernas se fundiram em uma só”, explica o menino.

“Foi quando o meu pai me explicou que estava criando saci no sítio, aí eu também comecei.” Ele conta que desde o começo pôde se divertir muito com os sacis criados no sítio. “A gente brinca de esconde-esconde, pega-pega, corrida-de-saco, que ele sempre ganha, porque é muito mais rápido. Só futebol que ele não joga”, lembra Rodrigo.

“Outro dia, cheguei lá e encontrei o saci sentadinho, chorando. Aí eu perguntei o que tinha acontecido e ele mostrou a poluição do rio. Cortaram várias árvores.” Segundo explica Rodrigo, o saci não gosta da destruição da natureza, o que está deixando toda a sacizada com muita raiva. “Ele também está bravo porque matam muitos animais. Ele disse que são mais de mil por dia. Mas eu pedi mais uma chance para as pessoas aprenderem. O saci deu, ele é legal!”, salienta o criador.

Rodrigo diz que quem quiser participar da Associação pode escrever uma cartinha, contar suas histórias sobre saci e ser um membro da ANCS. “Em agosto, tem o festival”, lembra o menino.

Apesar do saci viver no mato, às vezes ele pode aparecer na cidade. “É raríssimo, mas pode ser que ele queira fazer alguma travessura. No sítio ou na mata é mais fácil encontrar.”

Outro audaz criador de saci é o Fernando Damaceno de Carvalho, 9 anos. Ele começou há dois anos e ainda não domina o assunto. “Eu acho que ainda não aprendi tudo. Eu crio porque eu gosto, para tentar preservar. Quero deixar a natureza viver e realinhar todas as coisas”, acrescenta o menino. “Eu nunca vou vender! Vou deixar ele na mata, vivendo a vida dele.”

Fernando visita sua criação no Lajeado, em Botucatu, somente nos finais de semana e explica que o saci não fala a nossa língua. “Eu não entendo, é meio enrolado. Quando o saci é criança, é preciso pegar um cachimbinho pequeno e colocar fumo para ele ir aprendendo. Eu só levo o cachimbo quando vou visitar”, conta Fernando.

“O meu ainda é pequeno, mas ele fica com 1,20 metro mais ou menos. Para ele não morrer, a gente dá duas sementes, de palmeira e de sacizeiro. Aí o saci come.” Fernando também comenta sobre a sacizada. “Ele anda de bando, mas se vê alguma coisa diferente, ou alguém, eles se espalham e vira a maior bagunça”, finaliza o criador.

____________________

Como caçar

“Pegar uma peneira com uma cruz e uma garrafa com uma cruz na tampa. É necessário ter um ajudante. Quando aparecer o redemoinho, você joga a peneira em cima. O ajudante coloca o saci na garrafa. Você não consegue ver o saci no vidro, só consegue quando estiver com sono”, explica o criador Rodrigo Guimarães Wagner.

“Você fica na mata, sossegado. Aí, começa a chamar: Ô saci, vem aqui! Do jeito que ele for ouvindo, ele aparece e você pega a carapuça dele e coloca o saci na garrafa. Se você fica com a carapuça, ele não faz nenhuma traquinagem”, conta o criador Fernando Damaceno de Carvalho.

____________________

E você, acredita em saci?

Laura Rinaldi Gabas, 11 anos, acredita. “Eu fui na fazenda de uma amiga da minha mãe e ela ficou contando umas histórias de saci. Na hora fiquei só ouvindo, mas depois, quando fui dormir, ouvi umas risadas fortes. Fiquei com bastante medo. No outro dia, a crina do cavalo tava toda embaraçada.”

O Mateus Martins Corrêa, 10 anos, acredita. “Eu nunca vi, mas acredito. O saci é um protetor das florestas.”

Giovana Zonzini Costa, 11 anos, acredita. “Falam que aqui em Bauru tem um lugar onde guardam o saci, porque ele é muito rápido. Eu não sei onde é!”

Camila Anézio, 10 anos, não acredita muito. “Eu já vi os cavalos com a crina trançada e tinha um menino correndo pelo mato, mas não consegui ver se ele tinha uma perna só. Não sei bem se era o saci.”

Maíra Pizzo, 11 anos, acredita. “Nunca vi, mas quando encontrar com um vou ficar impressionada, empolgada, mas acho que não vou ter medo!”

Thaís Salermo dos Santos, 10 anos, acredita. “Dizem que em Botucatu tem um dia que as pessoas vão à caça do saci. A amiga da minha mãe disse que já viu, mas que o saci tem medo das fotos. Dizem que tem até rastro!”

Júlio César Forteza Medeiros, 10 anos, não acredita. “Eu não vi, então não acredito. Não tenho medo de andar no mato, mas se de repente eu encontrar com um, não sei. E se ele for bravo?”

Eduarda Lopes Georges, 10 anos, não acredita. “Eu nunca vi e nem pretendo ver!”