09 de julho de 2026
Mulher

Cresce atuação feminina, diz cientista

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar de todas as desigualdades que enfrentam ainda hoje na sociedade brasileira, as mulheres têm conquistado significativos avanços nos últimos anos, seja no plano político, no mercado de trabalho, nas relações familiares ou sexuais. Essa é a opinião da professora de ciência política da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, Maria Teresa Miceli Kerbauy.

Em Bauru, segundo ela, as mulheres ainda não conquistaram uma representatividade efetiva na política, cujo universo continua sendo essencialmente masculino. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - A senhora acredita que a participação política das mulheres tem crescido no Brasil?

Maria Teresa Miceli Kerbauy - Eu acredito que tem crescido sim. No caso dos cargos eletivos ainda não é o ideal, mas eu acho que a mulher tem adquirido mais representatividade nos partidos.

JC - A que se deve esse crescimento?

Kerbauy - Eu acho que esse crescimento está relacionado com toda a luta que as mulheres desenvolveram, especialmente a partir da década de 60, com o movimento feminista, no sentido de adquirir maior liberdade, direitos iguais, tudo aquilo que faz parte do ideário feminista.

JC - Antes desse movimento o papel da mulher era pouco representativo...

Kerbauy - Antes disso, a sociedade brasileira era extremamente patriarcal, a mulher praticamente não tinha direitos ou não se posicionava. E acho que é essa movimentação da década de 70, que foi mundial e cujos reflexos se fizeram sentir no Brasil, que abriram perspectivas para o mercado de trabalho e para maior escolaridade da mulher. Hoje você tem, por exemplo, a mulher com maior escolaridade do que o homem.

JC - Em linhas gerais, podemos pontuar quais foram as principais conquistas femininas?

Kerbauy - Foram as conquistas no mercado de trabalho, a questão sexual, o papel da mulher nas relações familiares, a questão educacional. Ter um índice de escolaridade maior, por exemplo, é bastante significativo. Eu acho que todos esses fatores foram importantes para uma melhor colocação da mulher na sociedade brasileira.

JC - Mas apesar disso, as desigualdades permanecem?

Kerbauy - O Brasil é uma sociedade profundamente desigual, e desigual não apenas com relação ao sexo. Por isso eu acho que a igualdade tem de ser perseguida. E tem de se conseguir a universalização dos direitos. Você tem, por exemplo, algumas denúncias de que mulheres no mesmo cargo, na mesma empresa, são discriminadas financeiramente. Então, isso é um indicador de que essas diferenças permanecem e que você tem de caminhar na luta para que as igualdades sejam alcançadas. Nós ainda temos muito para conquistar.

JC - E o machismo? Ainda é muito forte numa sociedade como a brasileira?

Kerbauy - Eu acho o machismo muito presente, às vezes as pessoas disfarçam porque não é politicamente correto, mas ele é muito presente.

JC - Enfim, há o que se comemorar nesse Dia Internacional da Mulher?

Kerbauy - Não sei exatamente se existe o que comemorar. Eu acho que esse dia é um marco no sentido das conquistas. As conquistas às vezes são grandes, às vezes são menores, mas elas são significativas no sentido de que a mulher está cada vez mais presente na sociedade brasileira e cada vez mais influi nos rumos da sociedade.

JC - As transformações estão ocorrendo de forma efetiva ou muito do que se vende é uma imagem estereotipada da emancipação feminina?

Kerbauy - Eu acho que as transformações estão ocorrendo. A duras penas, não da forma ideal. Mas você vê, por exemplo, que no último senso o número de mulheres chefes de família aumentou significativamente. É lógico que isso significa um encargo econômico, significa que as mulheres estão assumindo uma função de chefia familiar que não era próprio há algumas décadas passadas. Ainda existe muito preconceito, existem muitas diferenças, mas eu acho que a gente tem avançado nessa luta e precisa avançar mais ainda.

JC - Como a senhora vê a participação política das mulheres em Bauru?

Kerbauy - Eu acho que Bauru não tem uma participação efetiva das mulheres na política. É claro que você tem a Majô Jandreice (PC do B), a Darcy Gasparini (PMDB), a Estela Almagro (PT), que são nomes que despontam. Mas o universo da política ainda é muito masculino. E se firmar como mulher nesse universo masculino é muito complicado.