Há alguns anos, numa rápida observação pelas ruas da cidade, era raro encontrar a presença de uma policial feminina. No comando de uma delegacia, a situação se tornava ainda mais improvável, pois essa era uma área que parecia ser de atuação exclusiva dos homens.
Mas os tempos mudaram. E com eles, também a participação das mulheres que trabalham hoje na área da segurança pública em Bauru. São cerca de 90 policiais militares femininas e 71 mulheres atuando na Polícia Civil, em áreas administrativas e de investigação.
O crescimento do número de delegadas é um destaque, segundo Antônio Ângelo Ciocca, titular da Seccional de Bauru. Ele afirma que há cerca de cinco anos apenas uma mulher atuava nessa função. Hoje são quatro à frente de áreas consideradas importantes dentro da polícia, entre elas, o setor de homicídio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG/ Garra).
“Houve um crescimento considerável e eu acho que a tendência é de abertura e de concorrência da mulher em igualdade de condições com os homens”, diz.
A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Segurança Pública informou que não existem dados comparativos em relação à progressão do quadro feminino na Polícia Civil. Entretanto, em relação à PM, os números comprovam. No final da década de 80 existiam cerca de 3 mil mulheres atuando em todo o Estado. Hoje, esse número já chega a aproximadamente 9 mil. O vestibular para ingresso na carreira militar feminina também é um dos mais procurados na área de segurança. Em 2003, foram 1.155 inscritas concorrendo a 15 vagas.
Para a delegada Cintia Maria Quaggio, do setor de homicídios, o crescimento da atuação das mulheres é esperado no século 21, não só na segurança pública, mas em todas as profissões que antes pareciam relegadas à população masculina.
“Hoje, por exemplo, o número de delegadas é bem maior e a aceitação desse fato é total. Já é comum você ver várias mulheres na linha de frente”, diz. “A cada concurso, a cada contratação, você percebe que o número de delegadas vêm aumentando”, revela.
Cintia afirma que as policiais conquistaram respeito no ambiente de trabalho. Para ela, a tão propalada sensibilidade feminina chega até a ajudar no dia-a-dia “hard” da profissão, assegurando um atendimento mais humanizado.
De acordo com a delegada-assistente da Seccional, Cláudia Garms (que atua no setor de mandatários públicos), tempos atrás, como o número de delegadas era pequeno no Estado, as mulheres eram designadas quase exclusivamente para as áreas de atuação da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). “Com o crescimento das mulheres no quadro da polícia, hoje você tem delegadas em distritos espe-cializados, plantões, e outras áreas”, diz.
Para Ciocca, as delegadas de Bauru têm ocupado áreas de grande responsabilidade e se sobressaído pela atuação. “Uma cuida dos problemas políticos, duas dos homens violentos (na DDM) e outra cuida das pessoas mais violentas ainda, que são os autores de homicídios”, brinca.
Do salto alto ao coturno
Não só o número de mulheres aumentou, mas também o papel das policias militares femininas foi se transformando ao longo dos anos, na opinião da sargento Maria Helena da Silva Rodrigues, que iniciou a carreira na PM há mais de duas décadas.
“Eu sou de um tempo que as policiais usavam saia, sapatinho, meia-fina e uma bolsa do lado, com os apetrechos. Estávamos sempre com um batom na bolsa”, descreve.
Segundo ela, na ocasião, as mulheres exerciam mais um papel assistencial dentro da corporação. Hoje, afirma Maria Helena, elas atuam nas ruas e, inclusive, participam de confrontos de risco, se necessário. Na vestimenta, o salto alto, a saia e a bolsa foram substituídos pelo coturno, a calça e o revólver calibre 38.
“Antes o homem usava arma e a mulher não. Então o grupo masculino protegia o feminino”, diz. “Hoje a gente trabalha de igual para igual com os homens. E essa mudança não amedrontou as mulheres”, garante.
Maria Helena trabalhou cerca de 17 anos nas ruas, principalmente na Capital. Atualmente, ela está no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de Bauru. Apesar de enfrentar situações limite e conviver lado a lado com a violência, a sargento conta que as policiais levam uma vida comum.
“Antes de chegar aqui, colocar minha farda, eu cuido da minha casa e das minhas coisas. Inclusive eu estava olhando hoje a minha unha e disse: poxa vida! está faltando um pouco de esmalte”, brinca.
Maria Helena tornou-se uma espécie de “menina dos olhos” do comando da PM local, depois de ter se destacado numa missão heróica. Em 2002, ela auxiliou o socorro de um recém-nascido por telefone e tornou-se a personagem principal de uma história que culminou com o salvamento da vida do bebê.