08 de julho de 2026
Mulher

Elas são referência nas artes

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

A cena cultural bauruense é outro grande celeiro de mulheres de destaque. Elas estão presentes nas artes plásticas, no teatro, na fotografia, na literatura, na música, no Carnaval e até no lado alternativo da cultura, como o movimento hip hop, a movimentação do samba-rock e a cena eletrônica.

Algumas mulheres se destacam ainda por dar a chance de inclusão aos menos favorecidos dentro do setor cultural, fortalecido nos últimos anos com a organização e regulamentação de suas atividades, mas, por outro lado, enfraquecido pela queda de patrocínios.

Mesmo sem muitos recursos e incentivos, pessoas como Vânia Fonseca e Mara Rita Oriolo de Almeida arregaçam as mangas e batalham pela produção cultural dos excluídos.

Vânia fez teatro na adolescência, foi estudar direito e na faculdade tentou montar um grupo teatral. A iniciativa foi frustrada. Somente depois de formada e após anos como funcionária da Secretaria do Estado da Segurança Pública é que o projeto foi retomado.

A montagem do grupo teatral ocorreu há três anos, quando um diretor do Instituto Penal Agrícola (IPA) solicitou a ela, então sua assistente, ajuda para organizar um concurso de poesia entre os reeducandos. “Só que fiquei pensando, a gente faz o concurso, tem a premiação e a poesia, onde fica?”

E desse questionamento, Vânia começou a criar uma alternativa para a apresentação destes poemas. Montou um recital, reuniu alguns reeducandos e começou a encenar a dramatização do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.

“Eu não tinha cenário, nem roupas e precisava de uma coreografia. O palco do IPA é antigo e com fosso. Coloquei todos lá e eles iam saindo pelo alçapão. Foi muito legal. Mesmo sem luz e a coisa toda do complicado, foi uma surpresa. A massa carcerária toda estava lá, os funcionários também”, conta.

Desde então, o grupo já ganhou até prêmio em um festival realizado em Pederneiras, tem convites para se apresentar na região e nas entidades beneficentes da cidade.

“Esse é o lado bom”, desabafa a diretora, que não dispõe de recursos para a manutenção do grupo e precisa ensaiar sempre mais de um ator para os principais papéis para não ficar na mão, em razão de, a cada dia, haver a libertação de alguns e ingresso de outros. No dia da entrevista, por exemplo, o grupo contava com 23 integrantes, ganhou dois novos paticipantes, mas perdeu 11.

“A minha política é de inclusão e até os reeducandos que trabalham externamente têm chance, desde que ao final de sua jornada queiram participar de dez minutos da reunião. E eles querem, tenho um aluno que está comigo há dois anos e já ganhou prêmio.”

Medo, ela nunca teve, preconceito também não. Mas revela que, no começo, ouvia conversas tortas dos colegas, que aos poucos foram percebendo que seu trabalho era sério. Já com seus alunos a coisa é bem diferente.

“Nosso contrato é baseado em três pontos: confiança, responsabilidade e dignidade. E a minha maior recompensa é ver um aluno semi-analfabeto se esforçando para decorar um texto, subir num palco e viver outra vida”, finaliza a diretora do grupo

Raízes e trabalho

Formada em relações públicas, Mara Rita Oriolo de Almeida, 26 anos, atua em diversas frentes. É vocalista da banda SeguraNêga, aluna de percussão, diretora e primeira secretária do Grupo Cultural Quilombo do Interior, técnica cultural na Oficina Cultural Regional “Glauco Pinto de Moraes” e uma das representantes do núcleo de hip hop do interior paulista.

“O meu interesse pela cultura começou quando eu ainda estava na Unesp, pois as disciplinas que mais gostava na minha grade eram relativas à cultura. Cheguei a fazer um curso de extensão em antropologia e a aí surgiu o interesse de pesquisar a cultura popular, que é a que mais sofre o abuso da indústria cultural. Eu tenho essa coisa dentro de mim.”

A estudante, que desde a infância em Mogi-Guaçu (SP) já fazia parte de grupos de teatro e participava de inúmeros projetos estaduais, sempre levou a sério suas pesquisas e a luta cultural. Antes de vir para Bauru, deixou para a cidade natal o movimento Tudo pela Cultura (Tupec), do qual se orgulha de ter batalhado pelo espaço.

Continuando a sua luta, Mara fez parte do coral da Unesp, realiza perfomances e foi procurar um grupo genuíno e popular para desenvolver um trabalho de final de curso que resgatava a Folia de Reis.

“Sai na vila Falcão de porta em porta, procurando quem me desse uma luz. Até que achei um tiozinho que me deu o endereço da dona Ana, lá no Parque Viaduto, e comecei a sair com eles para fazer o trabalho e resgatar as visitas na casa da minha vó mineira, que recebia a Folia de Reis. Meu pai cantou em folia. Então, todo o meu universo é esse. Isso vem comigo desde pequena.”

A monografia lhe rendeu um pedido de mapeamento da cultura popular na região e também uma vaga de trabalho com oficinas. Numa delas percebeu a força do hip hop, que conta a história da massa da periferia.

Essa é a própria história de Mara, filha de uma empregada doméstica e de um funcionário de hospital, sobrinha de um único tio formado (advogado). Ela própria só conseguiu entrar numa universidade pública por ter trocado aulas de teatro com o dono de um cursinho.

“Sempre conto essa história não para me fazer de vítima, mas para mostrar, principalmente para os meus alunos adolescentes, que, se eu consegui, eles também conseguem.”

E, nessa conquista, a técnica cultural reúne “os manos” em praça pública se preciso for e organiza o movimento na cidade, apesar da resistência. Sua luta é para que o movimento siga a vertente da educação.

“Nós acreditamos em inclusão social e não em exclusão. Então, a gente acolhe e com trabalho a gente muda. Como eu vou reabilitar se não aceito? É isso que a sociedade não entende.”

Loucura cotidiana

O universo feminino sempre permeou o trabalho de Dóris Fleury, 41 anos, que no ano passado lançou o livro “Mulheres Pintadas – Retratos da Loucura Cotidiana” (176 páginas, Editora Celebris). Ela não nasceu em Bauru e hoje vem à cidade a passeio para reencontrar o pai, que mora aqui há 30 anos, e a irmã, que é médica.

“Mas minhas raízes estão aí”, declara a escritora, que viveu aqui a sua infância e adolescência e só partiu para estudar jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), na Capital, onde mora e escreve diariamente.

Os contos do livro retratam não a loucura feminina no sentido de psicose, mas a característica que se exacerba cada dia mais entre as mulheres por levarem tudo às últimas conseqüências.

“Quando percebi que os contos giravam todos sobre o mesmo tema: mulher, mulher, mulher, eu juntei e separei alguns porque achava que ali a mulher não era extremamente doida”, brinca a autora.

As personagens de Dóris são moças e velhas, pobres e ricas, casadas, solteiras e viúvas, que não são famosas, não aparecem na televisão e nem nas capas de revista, mas que se cansaram de esperar pelo paraíso e foram à luta com as armas que tinham.

Essas mulheres em pé de guerra, “loucas mansas ou varridas” como define na orelha do livro, são aquelas que muitas vezes a autora encontrou nas matérias dos tempos de repórter ou nas reflexões do dia-a-dia e que mais tarde ganharam forma de texto e como personagens que vivem no limiar da tragédia e da comédia.

Segundo Dóris, o natural do escritor é escrever sobre aquilo que conhece. “Então, a gente acaba até escrevendo em primeira pessoa, mas nunca parei e disse: vou escrever sobre a mulher.”

Entretanto, antes de “Mulheres Pintadas” chegar às livrarias, a escritora já tinha um site de literatura na internet (www.escrevinhadora.com.br), com visual e textos muito femininos. Agora, ela trabalha para lançar um segundo livro, que já está pronto e, por ironia do destino ou não, é um romance sobre uma personagem feminina, mais uma vez. Mas não é um livro feminista e a mocinha em questão também não é boazinha.

Para Dóris Fleury, as mulheres fazem a diferença na medida em que não têm vergonha de ser mulher. “A mulher só faz a diferença quando chega numa empresa, no local de trabalho, num cargo político e fala assim: vou me comportar como mulher. E ela não tem medo de ir bonita, perfumada, ser solidária, de não adotar as formas de poder do homem. Nosso desafio é tomar conta do lugar, do espaço que merecemos - sem dúvida alguma em igualdade de condições com o homem - sem ter que assumir os valores éticos dos homens, que a imposição de poder valoriza. Muito da loucura das mulheres vem dessa confusão toda.”