08 de julho de 2026
Mulher

Sem temer derrotas, elas batem um bolão

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Ela venceu todos as competições brasileiras na categoria super-ligeiro. Mas não é só isso, foi três vezes campeã sul-americana, competiu em dois Panamericanos e ficou em terceiro lugar duas vezes;, nos Abertos dos EUA, foi uma vez segundo e outra vez primeiro lugar; fez parte da delegação brasileira na Olimpíada de Atlanta e sempre se destacou nos circuitos europeus.

Se hoje a bauruense Renata Pereira da Silva Schia-vetom se orgulha de uma trajetória de mais de 300 medalhas em 20 anos de judô é porque ela venceu o primeiro round da luta de sua vida, 32 anos atrás, quando precisou ser ressuscitada pelo médico que fez o parto normal de sua mãe.

“Éle não percebeu que eram gêmeas. Tirou a minha irmã e me fechou lá dentro. Eu nasci uma hora depois, já lutando para sobreviver”, relembra a atleta, que desde criança gostava de esportes.

Aos 9 anos, quando participava de uma corrida no horto florestal, conheceu o cabo Alcides, que era pre-parador físico e a convidou para praticar atletismo.

“Eu gostava muito de atletismo, mas sentia que faltava alguma coisa. Nos jogos abertos e regionais, eu sempre gostava de assistir judô. Em uma das competições, que nem me lembro qual, eu conheci o Artêmio, o Cau-mo, o William e o Marcos (hoje, veteranos) e percebi que era isso que eu queria. Queria colocar quimono. Mas não tinha dinheiro. Hoje não, mas judô era um esporte de elite. Eu não tinha dinheiro nem para o ônibus e muitas vezes eu ia a pé assistir aos treinamentos na academia do Artêmio, que um dia me deu uma bolsa e me convidou para treinar”.

Em pouco tempo de luta e com quimonos doados pelos colegas, a judoca ganhou suas primeiras classificações e bateu seu primeiro recorde: em menos de quatro anos já era faixa preta.

Preconceito? Nunca, pois apesar de ser franzina e mulher, Renata sempre impôs no tatame o respeito que precisava, mesmo com um metro e meio de altura.

Casada há quatro anos com Victor e mãe dos gêmeos Pedro e Victor, de 3 anos, Renatinha tem tempo para levá-los na escola, na natação, na matemática e na fisioterapia, e ainda tem fôlego para dar aula em vários lugares para crianças e adultos.

“Hoje estou meio light, dou aula só em três lugares, cuido dos filhos e do marido. Mas já dei aula em cinco junto com a faculdade (de administração de empresas)”.

O segredo para administrar tudo isso está em marcar todos os compromissos num papel e seguir o roteiro. Os cuidados pessoais de vaidade e de saúde entram nas escalas de sábados, domingos e feriados.

“Estou sempre me esforçando para as minhas coisas ficarem em ordem também”, diverte-se. Mas Renata ressalta que sem a ajuda do marido e da babá muita coisa não seria possível.

“Eu tenho tudo o que uma pessoa pode querer ter e tenho a missão de dar a mesma oportunidade que tive para outras pessoas também e sonho em ver um atleta meu numa Olimpíada”, revela a atleta, que supervisiona uma escolinha de judô para crianças carentes no Geisel, o seu bairro, e este mês pretende colocar em prática um projeto na Nova Esperança. Mas até o final do ano, ela e outros judocas da cidade vão lutar para estender o tatame em mais dez bairros de Bauru.