Quantos julguem que a criança seja frágil e vulnerável, sujeita, consequentemente, a todos os perigos existentes no mundo e, portanto, sem possibilidades de se defender, incorrem em ledo engano, pois não tem ela nada disso e, paradoxalmente, possui recursos que a tornam válida desde os primeiros anos de vida. E no decurso de seu engano erram os pais quando, mesmo inconscientemente, tentam reproduzir a sua vida individual - gestos, hábitos, palavras, vestimentas etc. - na do filho que inicia sua caminhada na família, como que pretendendo ver sua fisionomia plenamente inserida naquela criança, diga-se, numa indeclinável herança total. É, então, que passando a entender que devam educar o menino ou a menina da mesma forma como a foram, tentam impingir os erros da educação que receberam. Não é fácil, por isso, a tarefa dos genitores, existindo aqueles que agem como se educação seja sinônimo de rigorismo e proibições paternais e impõem, então, ao menor, comportamento ético de adulto, o qual, por isso, não deixará de ter prejuízos temperamentais e pessoais no futuro que há de lhe acontecer. Instruem os educadores que nunca devem os genitores permitir que a criança faça tudo quanto queira, satisfazendo todos os seus desejos para fugir de frustrações e desenganos. Mas ensinam, também, que a garotada precisa, desde pequena, conviver com dificuldades e aprender a sair delas airosamente, uma vez que não pode deixar de sentir no íntimo, com o perpassar do tempo, a censura ou a recriminação que lhe venha dos pais ou parentes ou até amigos, considerando que isso fará com que a própria criança venha, ocasionalmente, a desenvolver seus próprios sentimentos de culpa, de um lado, e de autoestima de outro, o que deve despertar papai e mamãe para procurar solucionar o dilema que o invada face à liberdade que possam dar à filharada quando à escola de suas tendências e de seus cometimentos. É incontestável que os responsáveis necessitam conduzir-se, no tocante à educação da prole, com a devida autoridade, mas sem desrespeitá-la de maneira nenhuma, lembrando-se de que a ela assiste, como ser humano, o direito de fazer descobertas e realizar conquistas que estejam à sua frente e que não podem esconder-se de seu descortínio inato. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.
“Tudo quanto deves guardar, guarda bem no teu coração, pois dele procedem as luzes da vida. Pr. 4,23”