Os EUA foram muito rápidos ao fazer um apelo para o cancelamento das odiosas dívidas do Iraque, em grande parte porque isso custará muito pouco e, também, deixará livre recursos para projetos norte-americanos. Ao mesmo tempo, Washington está bloqueando o cancelamento da dívida de um dos países mais pobres do mundo, a Etiópia, o que se constitui num caso manifesto de aplicação de dois pesos e duas medidas. No final de 2003, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial informaram que a Etiópia preenche os requisitos para que tenha sua dívida aliviada em uma quantia adicional de US$ 700 milhões, que se acrescentaria à quantia já estabelecida antes.
Tal alívio é necessário, argumentou o Banco Mundial, para fazer com que esse país volte à “sustentabilidade” e possa receber um novo empréstimo a juros baixos, de US$ 1 bilhão, do próprio Banco Mundial. Se a Etiópia não receber esse empréstimo deverá gastar US$ 35 milhões por ano no serviço da dívida durante os próximos dez anos. Esta é uma quantia que poderia servir para salvar muitas vidas, caso fosse gasta em instalações de água potável e sanitárias.
A Jubilee Research foi informada por fonte fidedigna que o prometido alívio para a dívida da Etiópia foi atrasado e bloqueado pelos Estados Unidos, com apoio tático da Alemanha e do Japão. Em outras palavras, dois dos credores mais ricos do mundo estão tentando renegar seus próprios e bastante arbitrários critérios para recusar o alívio da dívida a um país pobre. Em resposta às demandas da Jubilee Research, o Tesouro dos Estados Unidos contra-atacou, pois, segundo um porta-voz, está preocupado porque a Etiópia teria uma desculpa para pedir mais empréstimos ao Banco Mundial. Nós, da Jubilee Research, rejeitamos essa declaração. Se os Estados Unidos estão preocupados sobre a possibilidade de um novo empréstimo, o Tesouro deveria incentivar o Banco Mundial a conceder doações.
Ao mesmo tempo que tentam impedir que a Etiópia seja beneficiada com alívio adicional de US$ 700 milhões em sua dívida, os Estados Unidos e a Alemanha fazem todo o possível para conseguir o cancelamento da dívida do Iraque. Os números oficiais sobre a dívida iraquiana são duvidosos, mas as estimativas variam de US$ 120 bilhões a US$ 200 bilhões. Enquanto existe uma evidente diferença entre os dois países em termos de PIB per capita, (o do Iraque é de US$ 2,4 mil), outros indicadores de pobreza não são muito diferentes dos da Etiópia. Entretanto, as perspectivas econômicas para os dois países são amplamente diferentes. O preço do principal produto de exportação da Etiópia, o café, caiu 73% nos últimos 20 anos e as condições climáticas do continente parecem se deteriorar ano após ano. A seca de 2003 foi uma das piores da história desse país e reduziu dramaticamente a produção e exportação agrícolas, o que levou a grandes importações de alimentos. A renda com o petróleo iraquiano de 2003 equivale a 35 vezes o valor das exportações etíopes em 2002.
A aplicação de dois pesos e duas medidas, por parte dos credores ocidentais, a estas duas nações revela que o alívio da dívida não se ajusta mais a uma série de regras estabelecidas pela comunidade internacional sob a Iniciativa para a Dívida de Países Pobres Fortemente Endividados (HIPC) mas, pelo contrário, está sujeita a arbitrárias considerações geopolíticas. A comunidade internacional deve honrar os compromissos assumidos em Colônia, em junho de 1999, perante os milhões dos seguidores da Jubilee 2000 de todo o mundo. Conduzidos pelo chanceler alemão, Gerhard Schroeder, os líderes mundiais prometeram aprofundar e estender o alívio da dívida a países como a Etiópia. Primeiramente deve ser frustrada a hipocrisia de seus enfoques divergentes com relação ao Iraque e à Etiópia.
A autora, Ann Pettifor, é diretora da Jubilee Research na New Economics Foundation (NEC) e editora do Real World Economic Outlook.