08 de julho de 2026
Geral

Gilgal ameaça encerrar atendimento

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

O Centro de Recuperação e Reintegração de Menores (Gilgal), entidade filantrópica que trabalha com dependentes químicos desde 1980, em Bauru, ameaça encerrar suas atividades a partir do próximo mês por falta de recursos financeiros. Há dois anos a Gilgal está sem receber subsídios porque os gestores anteriores não prestaram conta de uma verba pública, que teria sido utilizada indevidamente.

A entidade tem prazo até abril para regularizar a situação, conforme determinação do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Em fevereiro, demos prazo de 60 dias (para a adequação). Enquanto não fizer a devolução, a Gilgal estará inadimplente e não receberá recursos de lado nenhum. Na época, o valor era de R$ 18 mil”, informa a presidente do conselho, Maria Moreno Perroni.

O montante alcançou a cifra de R$ 25 mil, explica o presidente da entidade, Pedro Belini. De acordo com ele, além da dívida a entidade ainda administra um déficit mensal de aproximadamente R$ 3 mil para manter os oito adolescentes que ainda são atendidos no local.

Para mantê-los por um período de 30 dias, a Gilgal despende cerca de R$ 5 mil com alimentação, energia elétrica e água, num prédio cuja estrutura poderia acomodar confortavelmente 25 menores. A entidade chegou a atender 42 garotos em gestões anteriores. Para garantir a recuperação de todos eles, dez funcionários já foram contratados. Hoje, eles não passam de quatro e nem sempre recebem o salário em dia.

Colaboração

“Contamos com a compreensão deles. Quatro voluntários nos ajudam. Trabalhamos para garantir as refeições, água, luz e gás”, explica o monitor Hilton Moreira de Souza.

Segundo Rita de Cássia Mergulhão Belini, voluntária, a Gilgal sobrevive com a colaboração daqueles que compram carnês da entidade. São cerca de 500 pessoas que ajudam com a quantia que podem.

Para incentivar a participação de novos colaboradores, Israel de Paula passou a visitar empresários do município. Ele é pai de um dos internos e teme pelo encerramento das atividades.

“Depois que foi para lá, meu filho melhorou uns 1.000%. Ele é tratado com carinho. Eu sinto orgulho das pessoas que trabalham lá e acho que todo mundo deveria conhecer o que eles fazem para se orgulhar também. A entidade comporta mais do que oito menores. É uma pena. Precisamos fazer alguma coisa”, diz.

O presidente da Gilgal recorreu a políticos e ao Conselho de Pastores para tentar reverter a situação. “Vamos ainda tentar prorrogar o prazo (para adequação) e negociar valor e pagamento. Estamos estudando qualquer possibilidade”, enfatiza Pedro Belini.

Também estão analisando alternativas para resolver o problema da Gilgal o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e o Conselho Municipal de Assistência Social. “A gente trabalha para abrir (atendimentos), não para fechar”, garante a presidente do Conselho Municipal de Assistência Social, Egli Muniz.

Prejuízo

Na opinião dela, o encerramento das atividades da Gilgal resultará em prejuízos para a cidade. Concorda com ela a secretária municipal do Bem-Estar Social, Darlene Martin Tendolo.

“Estamos preocupados em encontrar uma forma de evitar que a entidade feche. Vamos discutir o assunto numa reunião, na próxima semana. A secretaria não pode viabilizar recursos em razão de impedimentos do Tribunal de Justiça do Estado”, informa.

Porém, sem subsídios públicos, a manutenção das filantrópicas é quase impossível, confirma o presidente da Associação das Entidades Assistenciais e de Promoção Social (Aeaps), Paulo Sérgio Canalli. Ele se dispôs a interceder junto ao município para garantir a manutenção da Gilgal em Bauru. Apenas outras seis instituições da cidade realizam trabalho da mesma natureza.

“Trata-se de uma entidade idônea. Pode ter havido algum deslize, mas sem má-fé”, conclui o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer.

• Serviço

A Gilgal fica na rua Madre Clélia, 4-57, no Jardim Cruzeiro do Sul. O telefone de contato é (14) 3231-0203.

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Verba pública

Os entrevistados ouvidos pelo JC não explicitaram os motivos que levaram a Gilgal a enfrentar problemas ao prestar contas de uma verba pública repassada há mais de dois anos à entidade. No entanto, informações extra-oficiais dão conta de que um convênio assinado junto à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) teria provocado o impasse.

Para atender as exigências do programa estabelecido junto à secretaria, a diretoria da Gilgal na época adquiriu computadores, máquina para confecção de roupas, camas e utensílios para cozinha com uma soma derivada de recursos municipais, estaduais e federais.

Porém, durante a prestação de contas, a administração municipal teria apontado problemas na data das notas e no balancete, produzido de maneira caseira.