08 de julho de 2026
Articulistas

"Marcha lenta"


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Quando tenho oportunidade de conversar com estudantes de economia ou com jovens profissionais, costumo dizer-lhes que, se for para explicar porque o País não pode crescer, o Brasil não precisa de economistas. A obrigação do economista é ajudar a remover os obstáculos ao crescimento, é mostrar a governos e empresas como isso pode e deve ser feito. No Brasil, há mais de uma década, um número expressivo de economistas - a maioria formada em escolas reverenciadas no Exterior - tem se dedicado exatamente a prevenir os brasileiros que “crescer é muito perigoso”, exortando-os a não se meterem em novas “aventuras desenvolvimentistas”.

Há 13 anos, o Brasil escorrega, chega a andar para trás e quando cresce é muito pouco, 2% ao ano, com uma população crescendo 1,4%. Resulta num crescimento “per capita” de 0,6%, o que significa que para dobrar a renda dos brasileiros vamos ter que esperar “apenas” 116 anos, ou seja, mais de quatro gerações! Esse é o resultado da “modernização” iniciada na década de 90, quando passamos a copiar os modelos recomendados pelos países que dominam as instituições multilaterais.

O que há é um enorme desconhecimento da história do mundo e de nossa própria história. A política que leva ao crescimento não é a que os Estados Unidos e outros países desenvolvidos usam hoje, mas é aquela que eles usaram até o início dos anos 80. São as políticas que o próprio Brasil adotou entre 1950 e 1989, quando cresceu 6,1% ao ano, tornando-se a nona economia do mundo. Isso não aconteceu por acaso, como também não foi por acaso que 2 milhões de brasileiros abandonaram o país nos últimos 13 anos, em busca de oportunidades de vida dignas no Exterior, inclusive em países que antes nos enviavam os seus trabalhadores. O “medo” do desenvolvimento resultou nas maiores taxas de desemprego de nossa história, com o aspecto mais cruel que ele é maior entre os jovens de 18 a 25 anos, que perdem o estímulo para estudar e investir em si mesmos para obter trabalho digno em seu próprio País.

Para reverter esse quadro, o Brasil precisa crescer 6% ou 7% ao ano, por muitos anos. O governo Lula têm que se convencer disso e começar a agir nessa direção, sem mais perda de tempo. Em 2003 ele superou a armadilha preparada para desestabilizar a economia, mas não pode aceitar que ela prossiga em marcha lenta em 2004. Para isso, deve apressar o lançamento das políticas industriais, mobilizar os bancos públicos, definir de vez o marco regulatório do setor elétrico, pois sem investimentos no setor ninguém vai acreditar em crescimento e, decididamente, retomar de imediato o processo de redução das taxas de juro. Nada disso produzirá mais inflação do que a esperada. Por último e não menos importante, o presidente tem que se convencer (e usar seu carisma para convencer os brasileiros) que o Brasil pode, sim, crescer bem mais do que a mixaria de 3,5 % ao ano durante seu governo.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP.