30 de maio de 2026
Geral

Entrevista da semana: Banco Mundial abre portas para ONGs

Diego Molina
| Tempo de leitura: 9 min

O Instituto Ambiental Vidágua, que completa 10 anos no final de 2004, teve mais um marco firmado em sua trajetória no início deste mês. O presidente da organização não-governamental (ONG), Kláudio Coffani Nunes, foi um dos representantes do Brasil na Semana de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Banco Mundial, realizada em Washington , nos Estados Unidos, entre os dias 1 e 5.

Nunes explica que o encontro tem o objetivo de estabelecer as políticas sócio-ambientais do Banco, elaborando as ações e direcionando os investimentos. “O Vidágua faz parte da coordenação nacional da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), que integra 257 organizações de movimentos ambientais e sociais, para proteger o que for possível dentro do ecossistema, não só as florestas e os animais, mas também os mananciais, a água, e a sociedade”, diz.

Além de um representante da RMA, outra ONG integrante do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) participou do evento, que reuniu ainda as principais instituições de defesa ambiental do planeta, como o Greenpeace e a WWF. Nesta entrevista, além do evento em Washington, Nunes comenta também sobre os principais problemas da Mata Atlântica e de Bauru.

Jornal da Cidade - Como aconteceu do senhor ser convidado para participar deste encontro em Washington?

Kláudio Coffani Nunes - O Vidágua foi convidado para representar as ONGs do Brasil e falar nesse evento do Banco Mundial sobre a Mata Atlântica e os projetos que podem ser desenvolvidos com esse ecossistema. Há 10 anos, o Banco Mundial começou a desenvolver dois departamentos, de Desenvolvimento Ambiental Sustentável e de Desenvolvimento Social Sustentável, que hoje, tomam quase 50% do pessoal que trabalha dentro da instituição. Esses dois departamentos novos organizaram uma semana de estudos ambientais e sociais sustentáveis, e acrescentaram na pauta a participação de parceiros não-tradicionais, que são as ONGs. Eles chamam de tradicionais os governos, que são estruturados e eleitos pelo povo. As ONGs nunca foram consideradas nas discussões porque cinco pessoas quaisquer podem formar uma organização.

No entanto, eles perceberam que esse movimento da sociedade civil é forte no mundo inteiro e acaba sendo mais transparente, eficaz, honesto e efetivo no que está fazendo. Pela primeira vez, o Banco Mundial chamou representantes da sociedade civil para explicar o que nós, as ONGs, fazemos. Tivemos a honra de representar 170 milhões de brasileiros e um ecossistema que era 15% do território nacional e que hoje é apenas 1%, onde está a maior biodiversidade do Brasil, apesar de todo mundo achar que é na Amazônia. A Mata Atlântica é onde há a maior quantidade de animais e plantas endêmicas - que só existem ali.

JC - E como foi a participação do Vidágua no encontro?

Nunes - Fizemos uma apresentação estruturada em dois momentos. Primeiro, apresentamos a Mata Atlântica e mostramos que ela não é a Amazônia. O Banco Mundial tem US$ 450 milhões investidos em projetos da Amazônia e apenas US$ 100 milhões na Mata Atlântica. Então, fomos divulgar o que é este ecossistema, sua biodiversidade e sua importância, além do enorme grau de degradação que ele sofre há 500 anos no Brasil. Na segunda parte, pudemos mostrar as parcerias que já existem e sugerir transformações, revisões de pensamentos e atitudes e orientações para que o Banco Mundial possa trabalhar melhor com as ONGs. Eles já investiram em dezenas de projetos brasileiros, mas os 13 apontados por uma auditoria como os mais eficazes são aqueles que têm a sociedade civil intervindo, porque são mais transparentes.

JC - Esta é uma vitória para as ONGs, não?

Nunes - Sim, é uma vitória nova, porque o Banco Mundial sempre agiu abrindo caminho para as empresas americanas que se instalavam nos países. Mas esse tipo de investimento, que pode gerar um lucro no primeiro instante, com as empresas produzindo e poluindo, gera um prejuízo maior a longo prazo, porque degrada a qualidade de vida.

Já é uma coisa incrível, para os movimentos sociais e ambientais, termos sido recebidos no Banco Mundial. E não só eles foram muito receptivos, como falaram que as portas estão abertas, esperando os projetos. E um detalhe: para os governos, eles emprestam dinheiro. Para as ONGs, eles doam. Nós não estamos fazendo dívida externa para o Brasil, estamos fazendo projetos que devem ajudar a sociedade.

JC - Já existem investimentos estrangeiros em projetos na Mata Atlântica?

Nunes - Sim, são projetos sócio-ambientais, com povos indígenas, comunidades tradicionais de pescadores, pessoas que moram nas matas, com quilombolas - que são descendentes de escravos que fundaram quilombos e estão lá há 100 ou 150 anos, e onde as pessoas nem falam português, falam dialetos que ninguém entende mais. Eles não têm documentação e são facilmente expulsos de sua terra. Por isso, existem grupos que buscam proteger os quilombolas.

Também há projetos de expansão urbana, porque o movimento ambiental não é contra a expansão das cidades, mas há que se batalhar pelo tratamento de esgoto, por exemplo. Cidades como Bauru, com 330 mil habitantes, produzem no mínimo 175 mil litros de urina e 100 toneladas de fezes por dia. E os movimentos ambientais e sociais se preocupam com isto porque existem as pessoas pobres, que moram na beira do rio, não têm água encanada, só água contaminada. Assim, sem tratamento de esgoto, as crianças ficam doentes, a mortalidade infantil é alta e temos todos os problemas que vemos nas periferias.

JC - O Vidágua conseguiu fechar alguma parceria neste encontro?

Nunes - Conseguimos fazer contato com pessoas extremamente importantes, que liberam verbas de US$ 200 milhões a US$ 5 bilhões. É até engraçado você conversar com uma pessoa que fala que tem US$ 6,5 bilhões para investir nos próximos dois anos e que está procurando parceiros para trabalhar. Uma pessoa me disse que o Banco Mundial tem US$ 15 milhões para investir em pesquisas no aqüífero Guarani, no oeste paulista.

Não fechamos nada ainda, porque isso é um processo que demora meses. O que conseguimos foi receber o cartão pessoal dos homens e ouvir deles: “Apresente um projeto nesta área que nós vamos investir”. Voltamos com informações para poder passar para outras ONGs da rede, dizendo que as portas estão abertas para que elas enviem projetos e possam trazer milhões de dólares para o Brasil em doações para projetos ambientais e sociais.

JC - A prefeitura de Bauru aguardava um empréstimo do Banco Mundial para a realização do tratamento de esgoto, mas até agora, nada foi feito. Como o senhor vê este processo?

Nunes - É extremamente decepcionante a mediocridade dos políticos de Bauru. Eu acompanhei os bastidores de tudo isso e sei que as coisas não saíram do papel porque é ano eleitoral e um grupo de políticos não quer que outro grupo tenha acesso ao dinheiro. Isso porque eles não confiam ou porque não querem que outros façam uma obra dessas em ano eleitoral. Infelizmente, vemos a mediocridade de políticos que impediram que a Câmara Municipal aprovasse essa receita da prefeitura, que emprestaria dinheiro para a Emdurb (Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru) quitar as dívidas e limpar o nome da administração pública bauruense, para que a Caixa Econômica Federal - que já tinha R$ 50 milhões separados - liberasse o dinheiro. Se isso tivesse sido feito, em uma semana o dinheiro estaria aqui e Bauru começaria o projeto de tratamento de esgoto. Em junho, vence o prazo que o Ministério Público deu para o tratamento ser iniciado, e nós do Vidágua vamos entrar com uma ação contra a prefeitura. Eles vão ter de pagar R$ 12 mil por dia de multa pelo não-cumprimento daquele acordo, por conta das picuinhas, da mediocridade e das brigas pessoais dos políticos bauruenses que não se preocupam com a sociedade que precisa tratar seu esgoto.

JC - Há algum outro caminho para que Bauru tenha o tratamento de esgoto?

Nunes - Caminhos sempre existem. Seria mais interessante que a administração pública administrasse o tratamento de esgoto, porque eles são eleitos pela população e têm responsabilidades. A gente tem medo da privatização, como fizeram com o pedágio das estradas, com a eletricidade. Melhora a qualidade do serviço, mas vai ficando um preço tão proibitivo que a sociedade, que é pobre, fica cada vez mais miserável para poder pagar elementos fundamentais. Preferimos que a prefeitura cuide do esgoto, mas, para que isso aconteça, ela precisa criar seus mecanismos, onde surgem as brigas políticas e os interesses particulares. Há alternativas. Só não há grandeza dos políticos e administradores em buscar uma solução de consenso para a sociedade.

JC - O Vidágua tem participado das discussões do novo Plano Diretor. Como o senhor analisa as questões que estão sendo propostas nas discussões, como a construção de avenidas nos fundos de vale e o problema da drenagem?

Nunes - O Vidágua está participando intensamente das discussões e, felizmente, nessa fase de planejamento, conseguimos conversar com o pessoal da prefeitura. Não esperamos ser chamados, tomamos uma atitude e fomos até eles. Uma das questões é preocupante porque toda vez que você tenta proteger fundos de vale, as pessoas que detém as áreas em volta, ligadas à especulação imobiliária, são contra, porque eles vão perder muito dinheiro e não aceitam. Entendemos isso, mas é mais importante que a sociedade não tenha mais inundações e tenha ambientes que possam contribuir para a qualidade de vida.

O melhor exemplo é a avenida Nações Unidas, que é um fundo de vale, um lugar onde passa um rio. Se construímos uma avenida em cima de um rio, não podemos ser teimosos a ponto de achar que a natureza vai respeitar a nossa lei. Aquilo é um rio e toda vez que chover nos próximos 50 mil anos, vai continuar sendo um rio, com ou sem avenida em cima. Como há a avenida, ela própria vira o rio e temos inundação, porque nós não impermeabilizamos o fundo do vale. Também crescemos nas encostas dos morros, impermeabilizamos tudo com asfalto e toda a água, que antes entrava no chão, escorre para lá, cai na Nações e vai para a avenida Nuno de Assis.

Somos contra a construção de avenidas em fundos de vale, porque esse projeto não protege os interesses da sociedade. No entanto, fazendo avenidas em volta dos fundos de vale, você preserva o local, que se transforma em área de proteção ambiental, onde você pode fazer parques, locais para caminhada, campos de esportes.

JC - O novo Plano Diretor abrange os principais problemas de Bauru?

Nunes - Eu penso que Bauru não é mais a cidade sem limites, é uma cidade com limites, porque não tem mais água para crescer. Não pode crescer para a zona leste, porque lá não tem água. Bauru não pode receber uma indústria de grande porte porque não tem água, o Rio Batalha não tem mais água, os poços não geram o suficiente. Por isso, temos de proteger os fundos de vale, as áreas de cabeceira de córregos e de proteção ambiental, que são as áreas que garantem que a água fique no solo e possa sustentar a cidade. Mas para algumas pessoas, infelizmente, isto é muito distante. Bauru é uma cidade com limites, e as discussões do novo Plano Diretor permitem que seja uma cidade com esperanças.