A Quaresma não é tempo só de penitências. É também tempo de preparação, de ensaio e de tirar o pó do cenário e das roupas a serem utilizadas na “Via-Sacra ao Vivo”, um trabalho do grupo de teatro Bom Jesus da cidade de Ibitinga (90 quilômetros ao Norte de Bauru).
O grupo formado por atores amadores trabalha muito com a emoção para superar a falta de técnicas, enfatiza um dos coordenadores Robinson Pinheiro.
De acordo com ele, depois de 22 anos encenando a mesma peça, a equipe de atores está recebendo instruções e orientações da Secretaria de Estado da Cultura. “Estamos aprendendo as técnicas de entonação de voz, expressão corporal, percepção, concentração etc.”
A idéia do grupo é aperfeiçoar o trabalho para que a população e os visitantes consigam entender a passagem bíblica, explica Pinheiro. “A nossa apresentação tem o objetivo de evangelizar através do teatro. Tudo isso aliado à cultura e ao turismo”.
Trabalhar com a emoção a ponto de superar os possíveis erros cometidos pelos integrantes do elenco é o desafio que o grupo enfrenta todo ano. “O que dá emoção é que tudo é verdadeiro. A cruz pesa e machuca Cristo. O centurião bate de verdade.”
O grupo de católicos garante que não tem preconceito religioso. “São 215 integrantes. Nós não questionamos a religião daqueles que querem participar. Exigimos apenas que tenham boa vontade de aprender, responsabilidade e respeito pelo texto bíblico.”
O texto original da peça foi escrito há 23 anos por um padre que chegou a Ibitinga vindo do ABC paulista. “Nós só acrescentamos algumas coisas. Inicialmente, tínhamos 58 integrantes. Hoje temos 215, a maioria figurantes”, ressalta o coordenador Roberto Alves da Rocha.
A importância de cada um é ressaltada pelos coordenadores do grupo. “Não tem um mais importante que o outro. Nós acreditamos que todos são importantes porque se o iluminador não fizer o seu trabalho no momento certo, poderá comprometer a cena e toda a peça.”
Formado por pessoas simples, de profissões as mais diversas possíveis, o grupo é antes de tudo uma oportunidade única para que as pessoas se expressem. “São pessoas que nunca tiveram oportunidade de sequer assistir a uma peça teatral com atores profissionais”, comentam os coordenadores.
O marceneiro João Bosco dos Santos, 47 anos, é um exemplo da situação. “Eu nunca fui ao teatro e nem assisti peças com profissionais. Não me interesso pela vida artística, participo da Via-Sacra porque sou católico e tenho muita fé.”
Há quatro anos no grupo, o marceneiro não tem nenhum fala. “Eu faço o povão, só gesticulo. No início, há mais de 20 anos, fui convidado para ser Judas, mas não aceitei. Hoje, me arrependo de não ter aceito o papel.”
Para ele, encenar a Via-Sacra é um trabalho que exige muita coragem. “Encarar uma multidão não é fácil. O suor corre pelo corpo.”
Calendário de eventos
A “Via-Sacra ao Vivo” consegue atrair 10 mil pessoas ao Estádio Municipal de Ibitinga na Sexta-feira Santa. O público é 20% menor na quarta-feira. O esforço dos atores já está sendo reconhecido, acredita Robinson Pinheiro. “Este ano, vamos fazer uma apresentação em Tabatinga, Bariri e Piratininga.”
As apresentações fora de Ibitinga exigem agendamento e verba para custear os gastos essenciais, avisa Pinheiro. “Nós não cobramos nada, mas a cidade tem que arcar com as despesas essenciais.”
Em Ibitinga, segundo ele, quem arca com as despesas é a prefeitura e a Secretaria de Estado da Cultura. “A apresentação está no calendário estadual de eventos.”
Por força do papel
Quaresma é tempo de penitência e o advogado e bancário Robinson Pinheiro faz a sua por força do papel que desempenha na Via- Sacra ao Vivo. “Eu faço o papel de Jesus. Meu peso normal é 75 quilos, mas para chegar na Sexta-feira Santa com 65 quilos começo um regime em 1 de janeiro.”
A preparação, que é um verdadeiro misto de penitência, inclui ainda caminhadas diárias de 10 quilômetros e pouca comida gordurosa e doces. “Eu deixo a barba e o cabelo crescerem. Como eles já estão grisalhos, próximo da apresentação tenho que tingi-los e colocar um aplique para alongar os cabelos.”
Pinheiro se considera um privilegiado. “Não tenho nada a pedir. Tenho uma família feliz. Tenho saúde, paz, emprego, amigos e só agradeço a Deus por tudo o que ele tem me dado.”
No papel principal, ele diz que tem aprendido muito. “É muita responsabilidade. Todas as atenções se voltam para mim.”
Concentração
O divulgador Jorge Joel Lino, 50 anos, passa o ano divulgando os bordados de Ibitinga, mas quando chega a Quaresma ele tem uma atividade a mais: ensaia a Via-Sacra onde faz o papel de sacerdote. “Estou há quatro anos no grupo, mas a cada apresentação eu sofro. Meia hora antes, eu não converso com mais ninguém. Me concentro para superar o medo de enfrentar o público.”
De teatro, ele conhece muito pouco. “Quando morei em São Paulo, vi o Chico Anísio, mas não tenho conhecimento nenhum sobre as artes cênicas”, admite.
O pedreiro José Roberto Pasqualine, 52 anos, está no grupo desde o seu início. No papel de Caifás, ele se entusiasma com a possibilidade de ser ator. “Eu já pensei em deixar a minha profissão para ser ator, porém não tive oportunidade. Gosto de teatro. Assisti algumas peças que não lembro o nome.”
Na ponta da língua
O operador de máquinas Marcos Aparecido de Souza, tem 39 anos, 22 deles dedicado ao grupo de teatro. Como centurião, ele já está com o texto na ponta da língua. “Eu sei o texto todo. Da primeira vez, tive que decorar, agora só faço uma revisão”. Veterano na encenação, ele admite que em cada apresentação sente o rosto ferver. “Eu suo no rosto. Fico muito emocionado. O público proporciona uma emoção inigualável.”
Souza diz que gosta do papel e que se tivesse oportunidade poderia abandonar a atual profissão e ser ator. “Na oficina que está sendo oferecida pela Secretaria da Cultura aprendi muito.”
O texto que o sacerdote judeu tem que falar na encenação está “fresco” na cabeça do carteiro Edmundo Ramos Luz, 51 anos. “Estou há 23 anos no grupo e é muito emocionante ver a expressão de sofrimento estampada no rosto do espectador. Eles sofrem e choram com o sofrimento de Cristo.”
O professor de português e inglês Sílvio Luiz Titato, 25 anos, desempenha o papel de pilatos há três anos no grupo de teatro e tem o status de galã. Jovem e com papel de destaque, ele admite que ser pilatos tem os dois lados. “Eu apareço, mas como covarde. O papel me faz refletir sobre a covardia dele. Ele tinha o poder de ter mudado a história, mas preferiu lavar as mãos.”
Ele diz que fica indignado com a situação. “É um jogo político que se repete até hoje. As pessoas precisam atentar para isso.”
Para compor o papel, o professor procura a literatura e os filmes. “Desde criança que me interesso por teatro. Gosto de assistir os filmes em que há a aparição de pilatos para compor o meu papel.”