08 de julho de 2026
Regional

Macatuba transforma texto bíblico em uma peça de teatro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Tornar um texto bíblico acessível a todas as pessoas. Este foi o desafio enfrentado por um grupo de católicos de Macatuba (46 quilômetros a Sudeste de Bauru) em 1970, quando o padre José Corsine, que morreu em 1983, escreveu o texto da primeira versão da Encenação da Paixão de Cristo. A peça baseada no Evangelho de São João Batista, vem sendo encenada todos os anos na Sexta-feira Santa, atraindo milhares de pessoas de todo o Estado.

“Somos pioneiros na encenação da Paixão de Cristo”, orgulha-se Doralice Maria Artioli Munhoz, chamada carinhosa por Dora, que coordena o grupo. Na sua quarta versão, o teatro ao ar livre congrega 300 pessoas, entre atores e figurantes, todos moradores da cidade e sem nenhuma formação profissional em artes cênicas.

A coordenadora lembra que, em 1970, a encenação da Paixão de Cristo contava com apenas 35 integrantes. “Estamos representando há 34 anos. A cada ano, fazemos modificações, acrescentando diálogos e retirando cenas que não são de entendimento de todos. O nosso objetivo é fazer com que a maioria das pessoas entenda a história bíblica.”

Dora, uma apaixonada por teatro desde criança, é a autora das modificações feitas na versão escrita pelo padre. “Eu acrescentei alguns diálogos porque o Evangelho de São João Batista tem muita prosa e nenhum diálogo. O texto bíblico em si não foi modificado.”

Trabalhar com amadores é um prazer para Dora. Com seus 62 anos de idade e disposição de 20, ela “passa o texto” dos atores e verifica se a entonação da voz está como deveria estar, num frenético ensaio. “São todos frutos da terra. Ninguém é profissional. Todos têm mão calejadas e só entram em cena porque têm muito amor e fé, isso supera qualquer problema.”

Como diretora de elenco, ela se orgulha de dizer que a encenação já tem um “pezinho” no profissional. “Quando começamos era tudo mais difícil. Hoje, temos uma equipe técnica, uma equipe de efeitos especiais, equipe encarregada de montar cenário etc.”

Para ela, todos os integrantes são importantes. “Na visão daqueles que assistem à peça, Cristo é o principal personagem. Eu considero todos importantes, porque cada uma das cenas tem que ser perfeita. Se faltar uma lança na mão de um soldado, a cena não será a mesma e não produzirá o mesmo efeito, por isso eu acho que todos têm a mesma importância.”

É bem verdade, segundo ela, que o personagem de Cristo é o que mais sofre, em todos os sentidos. “Ele carrega a cruz e sempre sai machucado, porque ela é de madeira e pesa muito.”

Os textos são os mais simples possíveis por dois motivos, explica a diretora. “O personagem de Cristo tem cerca de 10 páginas de texto para decorar. Os sacerdotes têm seis, assim como pilatos.”

Pequenos detalhes

Dora e sua equipe cuidam de cada detalhe das roupas usadas na encenação. Durante o resto do ano, elas são encaixotadas e guardadas em um barracão no fundo da matriz da cidade. Na Quaresma, a poeira começa a ser retirada e o cuidado com os pequenos reparos começam a ser feitos. “Os nossos ensaios começam no próximo sábado, dia 6. Preferimos os finais de semana porque todos trabalham”, explica.

Para fazer os consertos no cenário e as modificações, a equipe conta com uma verba de R$ 9 mil, doada pelo município com a cooperação da Secretaria de Estado da Cultura. “Já temos a maioria das roupas e do cenário, por isso não temos tantos gastos”, justifica.