11 de julho de 2026
Geral

Voluntários ajudam adultos a ler e escrever no Vista Alegre

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Um grupo de moradores do Parque Vista Alegre e bairros vizinhos está aprendendo a ler e escrever graças à iniciativa da associação de moradores e o esforço de pessoas que se dispõem voluntariamente a ensinar os alunos todos os sábados de manhã.

São duas classes. Cada uma com cerca de sete alunos, que variam dos 30 aos 80 anos de idade. Apesar da flagrante diferença de idade entre eles, todos têm em comum a determinação.

Enquanto uns querem aumentar o grau escolar para poder sonhar com um emprego melhor, outros buscam nas aulas de alfabetização a oportunidade de poder ler “as coisas bonitas” da Bíblia ou cantar no coral da igreja acompanhando as letras no livreto.

Para Dária do Vale Ribeiro Yanase, que trabalha como professora voluntária na escola, a alfabetização daqueles que não tiveram a oportunidade de estudar quando eram mais jovens é “uma questão de cidadania”.

Embora não tenha nenhuma vantagem financeira para ensinar, Dária garante que está satisfeita com o que faz. Segundo ela, ensinar as pessoas a ler e a escrever é uma maneira de devolver à sociedade um pouco daquilo que tive a oportunidade de receber.

“Isso me faz crescer como ser humano”, declarou Dária, que conseguiu entrar numa faculdade depois de permanecer 27 anos fora dos bancos escolares.

Ela cursa atualmente pedagogia e não pensa mais em parar de ensinar. Segundo ela, o fato de ter ficado tanto tempo sem estudar está ajudando-a a entender melhor seus alunos.

Ano passado, ela fez parte de um projeto semelhante no Núcleo Mary Dota, que acabou não dando certo por falta de apoio. Além dela, também fazia parte do projeto a professora Karina Moretti, 24 anos.

Ao contrário de Dária, Karina já é professora formada e leciona desde os 15 anos. Acostumada a ensinar alunos bem mais jovens, ela revela que a determinação e a auto-estima da classe mantida pela associação do bairro faz com que o aprendizado seja mais rápido.

“Em um mês de aula, já deu para notar que o progresso foi grande”, disse ela, referindo-se aos seus alunos mais velhos.

Ela explicou que as aulas são baseadas em temas escolhidos pelos próprios alunos. A idéia é, com isso, despertar ainda mais a vontade de aprender e tornar as aulas mais atrativas.

Em cima do tema escolhido, é ensinado matemática, português, geografia e história.

Ao todo, o curso de alfabetização tem duração de 160 horas, equivalente à conclusão do ensino fundamental até a 4ª série, e o certificado de conclusão é homologado pela Universidade do Sagrado Coração (USC).

O curso é um dos poucos, senão o único, a contar com uma biblioteca de apoio.

Os livros, segundo o presidente da associação, Michel Miguel, 36 anos, foram doados por moradores e pela Secretaria Municipal de Cultura. São cerca da 1.400 livros das mais diversas áreas do conhecimento.

____________________

Motivação

A doméstica Edna Cega, 30 anos, parou de estudar quando estava na 3ª série do ensino fundamental. Anteontem, ela participava de sua segunda aula na sede da Associação dos Moradores do Parque Vista Alegre.

Ela ficou 18 anos sem estudar. Com o acirramento na disputa por uma vaga no mercado de trabalho, Edna se viu obrigada a voltar para a escola e continuar estudando para poder concorrer em pé de igualdade com os demais candidatos.

“Decidi voltar a estudar porque só assim vou conseguir um emprego melhor. Se (o mercado de trabalho) já está difícil para quem tem estudo, imagina para quem não tem”, pondera.

Já a aposentada Barbara Arlinda de Jesus, 71 anos, decidiu retornar à escola para poder cantar no coral do Clube da 3ª Idade e também da Igreja Nossa Senhora das Graças.

Sem saber ler, ela conta que se sente incomodada em ver os demais integrantes do coral acompanhando os cânticos pelo livreto e ela não pode fazer o mesmo.

Barbara não chegou a completar a 1ª série do ensino fundamental. Ela disse que teve de deixar a escola para trabalhar e ajudar a família em seu sustento. “Enquanto eu tiver saúde, vou continuar estudando”, prometeu.