26 de maio de 2026
Geral

"Terrorismo não combate o terrorismo"

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 10 min

Os atentados que abalaram Madri no dia 11 de março, deixando 202 mortos e cerca de 1,6 mil feridos, foram provocados pela insistência do primeiro-ministro José María Aznar em adotar a mesma política de retaliação dos Estados Unidos. Essa é a opinião do historiador espanhol Maximiliano Martin Vicente, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Para ele, ações como a guerra do Iraque e a invasão ao Afeganistão serviram apenas para fortalecer os grupos radicais islâmicos, como a Al-Qaeda, que supostamente assumiu a autoria dos ataques à Espanha. “Terrorismo não se combate com terrorismo”, afirma.

Natural de Salamanca, a 230 quilômetros de Madri, e radicado no Brasil desde 1977, Vicente acredita que os terroristas souberam escolher o momento exato para praticar o atentado na Espanha. “As pesquisas davam a vitória à situação nas eleições do último domingo e as explosões mudaram o quadro”, comenta, em referência à vitória do oposicionista José Luis Rodriguez Zapatero, que prometeu retirar as tropas espanholas do Iraque até o final de junho.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida pelo historiador espanhol ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Que reflexos os atentados de 11 de março trarão para a Europa e, em especial, para a Espanha?

Maximiliano Martin Vicente - Para a Europa, trarão um reflexo duplo. Primeiro, constatou-se que a guerra do Iraque foi um absurdo, feita em cima de mentiras. Outra grande conseqüência para a Europa é que ela vai rever a sua política em relação aos projetos dos Estados Unidos. Internamente, para a Espanha, os atentados levaram a um triunfo da democracia. Desde o primeiro instante dos atentados, ficou muito claro que não era um procedimento do ETA (grupo terrorista basco). Eles sempre avisaram quando fizeram ataques, que eram menores e mais localizados. Uma estrutura igual a essa que foi utilizada na Espanha levou todo mundo a identificar imediatamente como sendo de um organismo um pouco mais potente, mas como era véspera das eleições, o governo decidiu jogar pesado contra o ETA.

JC - Por que?

Vicente - Uma região da Espanha, a Catalunha, onde está Barcelona, já tinha feito um acordo com o ETA para liberar os terroristas em troca de iniciar uma negocição política. O governo central, no caso o Aznar, havia sido contra e estava batendo pesado contra essa política, dizendo que ela não funciona e que terrorismo se combate com terrorismo, ou seja, uma cópia da política do Bush. Depois dos atentados, ficou comprovado que a agência nacional de notícias ocultou informações desde o início. Tanto que estão pedindo a demissão do diretor da televisão estatal espanhola por conta dessa situação. Ele tentou jogar a população contra o ETA, dizendo que eles estavam certos e os catalães errados. Se comprovou que era o contrário e a população deu a resposta nas urnas. Isso é a democracia.

JC - Até que ponto os atentados tiveram, realmente, o poder de mudar o resultado das eleições na Espanha?

Vicente - Quando a Espanha decidiu entrar na guerra, as pesquisas diziam que 92% dos espanhóis eram contra ela. Só que, economicamente, o governo Aznar tinha conseguido ganhos significativos. Por isso, as pesquisas apontavam que ele teria condições de fazer o sucessor. Era um clima de “já ganhou”. A questão era saber se iriam conseguir maioria absoluta ou não. O 11 de setembro, nos Estados Unidos, foi condenável, assim como o 11 de março, na Espanha. Porém, creio que o terrorismo ganhou em qualidade política durante esse intervalo. Em Madri, não foi um ataque esporádico. Foi contra um país em um momento de eleição. Os terroristas souberam calcular politicamente o resultado dos atentados. Infelizmente, o que a gente percebe é que os custos disso foram vidas de trabalhadores, que não tinham culpa de nada.

JC - O novo premiê, José Luis Rodriguez Zapatero, já adiantou que pretende retirar as tropas espanholas do Iraque até o final de junho, um reflexo dessa mudança de postura que os terroristas pretendiam.

Vicente - Ele só está repetindo o que prometeu na campanha, que foi realizada em cima disso. Por enquanto, estou muito cético com relação a ele. O seu projeto é igual ao dos socialistas, que levaram o Aznar à vitória na eleição anterior. Ele quer voltar o estado para o bem-estar social, ou seja, o estado gastar em um momento em que a lógica diz o contrário. É também o contrário do que fez o Aznar, que determinou que o Estado não gastaria e daria incentivos à iniciativa privada. Ele abriu o país, que cresceu sensivelmente, e diminuiu o desemprego. Internamente, a política do novo premiê é um anacronismo, embora seja louvável o que ele pretende, que é construir moradias populares e melhorar a saúde e o sistema educacional. Politicamente, ele afirma que vai ficar ao lado da Europa, mas até aí é dificíl, por que é preciso definir qual Europa. A do Chirac (Jacques Chirac, presidente francês), que é de direita? A do Schröder (Gerhard Schröder, premiê alemão), que é de centro?

JC - Diante dessa nova posição que a Espanha pretende tomar, como será a reação dos Estados Unidos?

Vicente - Creio que a retirada das tropas espanholas irá afetar muito pouco o poder dos Estados Unidos. A Espanha tem 1,3 mil soldados no Iraque, contra mais de 120 mil norte-americanos. Politicamente, o reflexo que isso possa ter nos Estados Unidos é mostrar que a política do Bush está errada, mas não sei se a população dos Estados Unidos irá fazer essa leitura, porque é outra cultura e outra mentalidade. Eles não entendem esse espírito democrático que aconteceu na Espanha.

JC - Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, a Al-Qaeda prometeu realizar grandes atentados nos países que se aliassem aos Estados Unidos. No território europeu, a Espanha foi a primeira vítima. É possível prever novos atos, em breve, na Inglaterra e Itália, por exemplo?

Vicente - Creio que sim. O que ficou claro é que o posicionamento do mundo árabe, ao qual está ligado o Ossama Bin Laden, é dar o troco e esse troco é dado de uma forma não convencional. Reclamamos do que aconteceu na Espanha e dizemos que é condenável. Agora, tão condenável quanto tudo isso é o que os Estados Unidos fizeram no Iraque. Quantos civis inocentes não morreram lá? O mesmo ocorreu no Afeganistão. A diferença é que um utiliza o avião para bombardear e o outro utiliza algo mais brutal, que é o terrorismo.

JC - Logo após o 11 de setembro, boa parte dos norte-americanos adotou um sentimento de revanchismo, tanto que o índice de apoio ao presidente Bush quando ele decidiu atacar o Afeganistão foi muito alto. Na Espanha, a reação foi diferente e as pessoas saíram às ruas pedindo paz. Por que?

Vicente - São mundos diferentes. Além disso, a Espanha já vem sendo castigada duramente pelo terrorismo há muito tempo. Desde 1975 (com a queda do general Francisco Franco, ditador que governou o país entre 1939 e 1975), teoricamente não faria mais sentido o ETA estar agindo, mas ele continua. Isso é muito desgastante para o País, que já tem o seu capital acumulado em termos de terrorismo. Já os Estados Unidos nunca tinham passado por algo assim, que dissesse que o terrorismo era possível lá.

JC - O senhor comentou que o governo tentou, inutilmente, culpar o ETA pelos atentados. De alguma forma, o grupo terrorista basco sai fortalecido nesse episódio?

Vicente - Acredito que não, porque as pessoas distingüem muito bem as coisas. O que o ETA comprovou é que fala a verdade. Isso se os fatos comprovarem que ele realmente não teve nenhuma ligação com os atentados, o que ainda está sendo apurado. Talvez possa não ter tido participação direta, mas indiretamente ter colaborado. Na Espanha, e digo isso com conhecimento de causa, os atos do ETA não se justificam mais. As formas de combatê-lo, porém, podem ser modificadas. Na Catalunha, isso ficou claro. As negociações foram feitas via Justiça. Dessa forma, você consegue criar um clima em que a lógica do terrorismo desaparece. Se você parte para o combate, a reação é imediata.

JC - Os Estados Unidos passaram a adotar medidas de segurança extremas depois do 11 de setembro e elas permanecem até hoje. O senhor acredita que a Espanha seguirá o mesmo caminho?

Vicente - Isso me preocupa, porque a imigração marroquina na Espanha é muito forte. Até agora, a Espanha não teve um partido radical contra o terrorismo, como teve a França de Le Pen (Jean-Marie Le Pen, candidato de extrema direita derrotado nas últimas eleições) ou a Alemanha com os neonazistas. Creio que, agora, se abriu um espaço perigoso para que esses grupos possam agir. Embora não seja uma retaliação da sociedade, a questão das identidades culturais preocupa. Por enquanto, a grande arma que se tem para não acreditar nessa hipótese é que o governo que entrou é mais ponderado. Se fosse o Partido Popular, com certeza os atentados iriam implicar em expulsão de pessoas ilegais e teríamos uma autêntica caça às bruxas. O que o novo governo pode fazer é um controle mais rigoroso das fronteiras, principalmente na região sul.

JC - É possível traçar um paralelo entre os grupos terroristas que agem por motivações políticas, como o ETA e o irlandês IRA, e os grupos islâmicos, que atuam em nome da religião?

Vicente - Sim. São ligações históricas. O que era a Espanha antes e depois de Franco? Depois que ele assumiu o poder, adotou-se um modelo centralizador em uma região que, historicamente, nunca havia sido conquistada por ninguém e que foi obrigada a aceitar esse poder que vem de fora. A reação foi agir com a mesma violência com que ela foi invadida. A ação do ETA se justificava, tanto que me lembro, na minha época de estudante, da classe estudantil apoiar essas ações contra o estado. A partir do momento que Franco morreu e que se vislumbrou a democracia, todos mudaram de opinião. Se analisarmos historicamente todos esses movimentos, a raiz política surgiu sempre que eles foram dominados e oprimidos.

JC - O senhor comentou que terrorismo não se combate com terrorismo. Como os Estados Unidos deveriam ter reagido após o 11 de setembro?

Vicente - Acho que a questão é outra. Por que se chegou ao 11 de setembro? Estudei essa questão e a resposta é assustadora. As pessoas que praticaram os atos terroristas foram armadas pelos Estados Unidos. Isso significa que, quando a União Soviética batia às portas e ameaçava invadir determinados países, eles armavam esses grupos. Agora que a União Soviética não preocupa mais, são esses grupos que incomodam. Qual é a diferença de Portugal estar no Brasil e os Estados Unidos estarem no Afeganistão? Nenhuma. Nós não gostamos de Portugal ter tirado nosso ouro. Eles também não querem que a sua riqueza seja retirada. A reação é imediata.

JC - O senhor tem parentes ou amigos morando em Madri?

Vicente - Tenho um sobrinho que faz esse trajeto de trem que foi atacado diariamente. Por coincidência, no dia dos atentados ele tinha aula mais tarde e não foi no primeiro trem. Como não sabia disso, liguei para lá imediatamente quando soube dos ataques e, por sorte, as linhas telefônicas ainda não estavam congestionadas e pude ter notícias dele.

JC - É possível dizer que um dia viveremos sem terrorismo?

Vicente - Não sei se isso é possível. Uma das conseqüências imediatas da globalização é que ela colocou em choque as culturas. Ela permitiu que as diferentes culturas convivam em diferentes lugares sem ter uma raiz nacional. Inevitavelmente, você tem um choque de identidades. Na França, por exemplo, os franceses acham péssimo que um árabe que mora no mesmo local que eles possa ter três ou quatro esposas. Em determinado momento, essa diferença começa a incomodar e acaba gerando os atos a que temos assistido.