Distribuição de camisetas, bonés, santinhos e chaveiros ainda compõe a cultura da campanha eleitoral no Brasil. Mas muito mais do que brindes, os candidatos que vão disputar as eleições deste ano - prefeitos e vereadores - devem levar em conta que o eleitor já está a caminho de ser promovido à condição de cidadão. Está mais atento, exigente e consciente da necessidade de práticas administrativas sérias, que representem o desenvolvimento social.
A avaliação é do jornalista Marco Iten, especializado em marketing político e eleitoral, autor do livro “Eleição - vença a sua”. Ele garante que nos dias de hoje nenhum eleitor se sente satisfeito apenas com o recebimento de brindes. “É por isso que a classe política está buscando um aperfeiçoamento no seu processo eleitoral. É nítido esse grau de preocupação em políticos interessados em diferenciar a campanha”, conta.
Além de toda a parafernália material que envolve uma campanha de três meses, as atenções também têm se voltado para a aplicação de uma linguagem honesta e transparente. “Nota-se a vontade de um determinado segmento da classe política em se aperfeiçoar no processo de comunicação e identidade com o eleitor”, analisa Iten.
O consultor diz que esse segmento está se preparando há mais de dois anos para as eleições municipais. “Antes mesmo das eleições presidenciais já havia uma demanda crescente. O interesse maior concentra-se no planejamento da campanha eleitoral, que significa identificar o perfil exato do eleitor e o estabelecimento de tecnologia para esse comprometimento”, explica.
Componente mínimo
Diferentemente do passado, a boca-de-urna é apenas um componente de final de campanha que já não faz diferença nas votações. “Antigamente, você via o político muito preocupado com o que fazer na boca-de-urna. Hoje é importante marcar presença na boca-de-urna para se mostrar que se esteve forte na campanha inteira. Ela não mais decide votos”, garante o jornalista.
Na opinião dele, a promessa pela promessa também está em desuso. “Hoje, o candidato tem que se comprometer com determinadas ações compatíveis com o dinheiro que a prefeitura vai ter. Subir no banquinho e prometer a construção de um pronto-socorro é coisa do passado. Corre-se o risco de alguém se manifestar e falar que é do Conselho de Saúde e perguntar de onde sairá o dinheiro.”
Para o consultor, esse comprometimento com a realidade afasta a prática do populismo que tomou conta das eleições no passado. “O diálogo mais honesto é exigência de uma sociedade que tem mais informação. Hoje, o eleitor abre o site e vê quanto o governo gastou em obras. E se esse serviço não está disponibilizado, com certeza será motivo de questionamento.”
Milhão x tostão
Uma campanha milionária nem sempre resulta na eleição do candidato, garante Iten. “O dinheiro não é o componente decisivo de um processo eleitoral. Já fiz campanha de candidato duro, sem dinheiro, que enfrentou pessoas poderosas e, ao final, ganhou a eleição. O dinheiro até pode ser um instrumento contra uma campanha”, ensina.
Nesse sentido, o consultor afirma que uma campanha bem planejada fica mais barata e incorre em menos erros. “A campanha é uma construção. É um processo diário de criação de relacionamento, estabelecendo contatos e compromissos com uma certa antecedência. Isso também barateia a campanha.”
A questão dos valores gastos numa campanha é um item polêmico, que sempre provoca desconversa no grupo político quando é levantado.
“Em São Paulo, por exemplo, comenta-se que uma campanha à prefeitura não sai por menos de R$ 80 milhões. Numa cidade como Bauru, a produção de programas de televisão envolvendo o primeiro e o segundo turnos não custa menos do que R$ 400 mil”, calcula. A expectativa é de que, no total, uma campanha à Prefeitura de Bauru deverá custar algo em torno de R$ 1 milhão.