26 de maio de 2026
Economia & Negócios

Guerra das cervejas prejudica cantor

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Nem crise dos bingos, nem caso Waldomiro Diniz. O assunto que dominou a mídia e foi um dos mais comentados nas ruas pela população ao longo da semana foi propaganda de cerveja. A guerra das “loiras” chegou a tal ponto que comenta-se em falta de ética e multa milionária por quebra de contrato. Para os profissionais de marketing de Bauru, o maior prejudicado na história foi o garoto-propaganda, que aparece na tela defendendo duas marcas concorrentes.

A polêmica começou na sexta-feira, dia 12, quando a Brahma, segunda colocada no ranking de cervejas no Brasil, colocou no ar um comercial mostrando o cantor Zeca Pagodinho exaltando a marca e dizendo: “Fui provar outro sabor, eu sei. Mas não largo o meu amor, voltei”.

Desde setembro de 2003, Zeca era contratado da Schincariol, cervejaria de Itu dona da marca Nova Schin, a terceira cerveja na preferência dos consumidores do País. Ele apareceu no comercial de lançamento da marca, experimentando e aprovando o produto. Para isso, comenta-se no mercado publicitário que o cantor teria ganho R$ 1 milhão.

Já para abraçar a campanha da concorrente, dizem que Zeca Pagodinho embolsou US$ 3 milhões (aproximadamente R$ 8,7 milhões).

Outra cifra muito comentada, mas não confirmada, é a que envolve o valor da multa contratual do cantor. Estima-se que esteja na casa dos R$ 18 milhões e que a Brahma teria se encarregado de arcar com essa despesa.

A assessoria de imprensa da cervejaria diz que a empresa ainda não recebeu nenhuma notificação sobre esse assunto e que, portanto, não vai se manifestar sobre esse pagamento.

Para contra-atacar, a Nova Schin colocou no ar uma propaganda com um sósia de Zeca Pagodinho. No filme, que se passa em um bar, aparece uma placa com os seguintes dizeres: “Prato do dia: traíra”.

O tema do comercial gira em torno de uma proposta para um personagem, denominado Zequinha, trocar de marca por determinada quantia. O sósia do cantor fica ao fundo e aprova a decisão do personagem principal quando este diz que, por US$ 3 milhões, fala que ama e ainda dá beijo na boca.

Imagem arranhada

Para profissionais da área de publicidade de Bauru, o maior prejudicado nessa guerra foi o garoto-propaganda. “Provavelmente, daqui em diante, nenhuma empresa vai querer contratar o Zeca Pagodinho para representar a sua marca”, diz o publicitário Lupércio Zampieri.

Ele diz que a polêmica foi muito boa para as marcas, pois colocou-as em evidência durante a semana. Mas para o cantor, trouxe conseqüências negativas. “Estão todos questionando o caráter dele”, destaca.

Armando Martins, presidente da Associação dos Profissionais de Propaganda (APP), regional Bauru, concorda com Zampieri. Para ele, a peça publicitária denegriu a imagem do artista. “As conseqüências só foram boas para a Nova Schin, que polarizou novamente com a Brahma e teve seu nome destacado em todos os lugares”, salienta.

O professor de criatividade do curso de publicidade e propaganda da Universidade Paulista (Unip), Marcelo Gonçalves Miguel, diz que a propaganda colocou em xeque a idoneidade do cantor. “No fim das contas, as pessoas estão comentando a postura dele e não o que as marcas estão fazendo para vencer essa guerra”, ressalta.

Nas ruas, a população se divide. Há quem diga que o cantor tem livre arbítrio e pode trocar de marca de cerveja quando quiser. Outros acreditam que ele deu um mau exemplo para o povo, ao passar por cima de um contrato e ceder aos apelos da concorrente.

Para o publicitário Lupércio Zampieri, esse episódio mexeu com o mercado publicitário, a ponto de algumas empresas estarem questionando se vale a pena ou não investir em um garoto-propaganda para divulgar a sua marca. “Uns dizem que não vão mais utilizar esse recurso; outros afirmam que vão tomar mais cuidado na formulação do contrato.”

Já Martins acredita que as empresas sempre souberam do risco de se contratar uma pessoa para representar o nome da empresa. “Tanto é que elas fazem contratos para se precaver”, salienta. Para ele, a relação entre marca e personagem não vai se alterar por causa dessa ocorrência.

De acordo com Miguel, a situação foi constrangedora para o mercado publicitário. No entanto, ele levanta a hipótese de que tudo pode ser “jogada de marketing”. “A gente fica aqui questionando a postura do Zeca Pagodinho e ele pode estar rindo de todo o mundo, pois tudo isso pode ser uma bela estratégia de marketing das cervejas para elevar as suas marcas.”

O que você achou da atitude do cantor Zeca Pagodinho?

“Ele é o personagem-marketing, então, ele trabalha porque é a profissão dele. Algumas pessoas pensam que ele não deveria fazer aquilo, pois seria uma traição. Mas a gente tem de entender que a vida dele é essa. Ele é artista. As empresas é que devem correr atrás do marketing. Ele está certo”, Sandro Barbosa Silva, missionário

“Acho que ele traiu a Nova Schin, pois estava fazendo propaganda desta cerveja e mudou para a Brahma. Mas é uma questão de dinheiro, talvez a Brahma tenha pago mais. Hoje, o que fala mais alto é o dinheiro”, Rhilston Scatena Gonçalves, garçom

“Acho que ele fez mal em trocar uma cerveja pela outra. Ele ganhou dinheiro da Nova Schin e não devia ter feito propaganda da Brahma. Foi uma atitude errada”, Jocelino Soares de Souza, aposentado

“Eu acho que ele foi errado. Se você fechou um compromisso com alguém, tem que ir até o fim. Quem volta atrás é porque não tem palavra. Por isso que o mundo está do jeito que está. Ele deu um mau exemplo, independentemente de ter sido uma propaganda de cerveja, que é algo mais descontraído”, Flávia Camargo Biazoti, professora

“Toda quebra de contrato implica em responsabilidade. Quando você assume um compromisso, tem que cumprir. Mesmo que ele tenha recebido uma oferta muito grande, tentadora, isso não justifica. Prejudicou muito a imagem dele”, Plácido Vasconcelos, militar

“Eu adoro o Zeca Pagodinho. Eu sou evangélica e não bebo, mas achei legal o que ele fez. Para mim, foi uma atitude normal. Não influenciou em nada na imagem que tenho dele”, Mariana Sampaio, dama de companhia

“Ele tem livre escolha e pode optar pela propaganda que quiser fazer. Além disso, está ganhando um bom dinheiro. Outra coisa: agora ele está bebendo o que realmente gosta”, Luciene Batista, professora

“Cada um faz o que quer. Ele tem o direito de mudar de opinião. Acho que isso não prejudicou em nada a imagem dele, continua do mesmo jeito”, Maria Regina Satio, comerciante