11 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: A solitária condição humana

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Dois amigos alpinistas, Alfredo e André, se aventuravam novamente pelos difíceis caminhos de altas montanhas quando, de repente, foram surpreendidos por uma fortíssima nevasca. O frio era terrível e os dois tentavam caminhar com rapidez para alcançar o abrigo mais próximo.

No meio de tanta neve, os dois alpinistas avistaram um homem caído no chão. Alfredo, então, disse ao companheiro: “Nós precisamos ajudá-lo!” “Você está louco!”, respondeu André, “Nós temos que encontrar um abrigo. Ninguém pode exigir que nós o ajudemos se nós mesmos estamos em perigo!” “Mesmo assim...”, respondeu o amigo, “o homem precisa de ajuda, vamos levá-lo conosco!”

André, porém, sem dar ouvidos ao companheiro, continuou o seu caminho desaparecendo na nevasca. Alfredo levantou o estranho caído no chão e carregando-o continuou a caminhar em direção a um abrigo. Com tanto esforço, Alfredo começou a esquentar-se e o calor de seu corpo fez com que o estranho se mantivesse também quente. Depois de caminhar um bom pedaço, Alfredo avistou uma casa e, ao ser acolhido por um grupo de alpinistas, acabou salvando sua vida e a do estranho.

Alguns dias depois, o amigo André foi encontrado totalmente congelado entre as rochas da montanha. Para a maioria dos filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre, é impossível definir o ser humano. Cada ser humano é a princípio, ou no princípio de sua vida, uma verdadeira incógnita e sempre traz consigo algo de surpreendente. Sem dúvida alguma, nenhum ser humano surge na existência como uma “tabula rasa”.

Ao iniciarmos o nosso desenvolvimento, recebemos de nossos ascendentes caracteres hereditários e sofremos influências de nosso meio natural e cultural. Porém, a síntese desta junção de elementos, em outras palavras, o que na verdade o ser humano pode ser, vai se definindo durante o seu próprio existir. A definição do que somos completa-se durante nosso caminhar e através de nossas realizações.

“O êxito começa no exato momento em que o homem decide o que quer e começa a trabalhar para consegui-lo” (Roberto Flávio C. Silva). O ser humano não é outra coisa senão aquilo que ele vai se “fazendo”. Esta síntese muito própria entre situações da vida e reações do indivíduo, os existencialistas denominam de “subjetividade”. Nós não somos iguais a uma semente ou uma abelha que possui uma vida programada.

Os seres humanos, por serem animais racionais, podem interagir com elementos de sua natureza e de sua cultura programando a si próprios e definindo sua história. Sua subjetividade se constrói através das ações, reações, omissões, enfim, respostas do ser humano em direção a seu futuro. Portanto, cada ser humano responde com sua própria vida à questão fundamental de sua existência: “por que nasci, por que existo?”

Nesta resposta, apesar de todas as influências naturais e sociais, nos encontramos sozinhos. “Não é suficiente ter uma boa mente: o principal é usá-la bem” (René Descartes). Refletindo sobre a resposta solitária do ser humano diante do sentido da vida, Dostoievski escreveu, certa vez, que se Deus não existe, tudo é permitido. Porém, não somente na negação de Deus encontra-se a solitária condição humana.

Mesmo admitindo a idéia de um ser superior, o ser humano continua a constituir-se em um indivíduo portador de uma razão e de uma liberdade de escolha, ou seja, mesmo que Deus exista, para o ser humano tudo é permitido. Se compreendermos nossa constituição humana, devemos obrigatoriamente chegar à conclusão da falta de liberdade deste ser superior que chamamos de Deus.

A partir do momento que Deus permitiu que o ser humano surgisse na vida, Ele acabou restringindo sua própria liberdade. Se acreditarmos na existência de Deus, podemos certamente cultivar um relacionamento com Ele e, através deste, nos fortalecermos na busca de construirmos uma existência feliz e completa.

Porém, se torna contraditório pensar na dignidade do ser humano e na intervenção de Deus em nossas decisões. Mesmo que tenhamos uma vida de fé em Deus e cultivarmos um relacionamento com Ele somos nós mesmos que construímos nossa existência e, diante da natureza e da cultura, podemos fazer nossas escolhas. Ao analisarmos a história da humanidade chegamos à conclusão de que o ser humano está, em relação a Deus, livre e sozinho diante de suas alternativas. Se Deus é amor (1 Jo 4, 8), nossa história seria outra caso Deus conduzisse nossa existência.

Diante dos diversos caminhos que podemos escolher, o importante é compreender que o caminho em si não é o fundamental, mas sim a possibilidade deste caminho dar um sentido à vida. Apesar de todas as limitações da natureza e da cultura, podemos fazer escolhas para que se desenvolva uma consciência de solidariedade entre os seres humanos e se construa condições de vida para que todos os indivíduos possam, com lucidez, dar uma resposta ao sentido de sua existência. “Não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é um jeito de caminhar” (Thiago de Melo ).